madrigal blog de poesia

May 31, 2005

Remissão

Tu foste um anjo
sem mácula, que preencheu
as minhas longas alvoradas
tão cheias de afabilidade
Calmamente, fizeste-me compreender, que
o amor é mais que dar, e menos que receber
e pode ser tudo o que quisermos
Teu olhar que não vejo, mas sinto
consternado, só me inquieta mais
por saber que sem querer te feri
Perdoa-me!
Quisera eu adorar-te, e cerro os meus olhos
porque sem querer, vejo as lágrimas
que caem dos teus olhos
E escorrem sem rumo definido
Mas… sem que saibas
essas lágrimas caíram na minha mão
e transformaram-se em pérolas
que adornam um anel
que trago no dedo
da minha direita…

© Piedade Araújo Sol
Funchal,31 de Maio de 2005

À felicidade disse não

Não mais
irei visitar as serranias
que dormitam nos meus sonhos
Não mais terei o tremor
que se apoderava de mim
e me incendiava os sentidos
quando te via
Não mais
ousarei sonhar com o teu corpo
que me servia de guia
neste submundo
Agora vou abdicar
do direito de
usar a loucura
para entrar no reino dos humanos

© Rogério Saviniano Telo
31 de Abril de 2005

A Poesia da Paleta de Paul Klee

Sendo certo que foi um construtivista do abstraccionismo, um cubista pelo rigor das formas geométricas, um colorista de manchas difusas, não é menos certo que Paul Klee foi também um pintor de poesia visual.

Entre aguarelas e óleos que marcaram com a variedade das formas e das cores da subtileza, dos sinais e dos símbolos quase hieroglíficos, toda a arte ocidental das primeiras décadas do século XX, ao pintor suíço ainda restou tempo para honrar o latino Horácio e a arte poética deste, ao fazer poesia como pintura falada.

Paul Klee

leia mais >>

artigo assinado por J. T. Parreira.

May 30, 2005

O Galo

Un gallo
cantò; altri risposero qua e lá.

Umberto Saba

Un galo
cantou e outro respondeu
que está lá
no seu posto móvel
no vento
qualquer coisa negra
começa a desfazer-se
em claridade, a noite
repassa as outras latitudes
qualquer coisa começa
a restaurar-se nas janelas
as casas respondem
outros animais
retomam nos quintais
a domesticada vida
numa repetição sem delícia
nem tédio, um galo
avançou com a rotina
em todo o seu canto
que procede
do silêncio.

© J. T. Parreira

versão em inglês por João Tomás Parreira (filho) aqui

May 29, 2005

Poema incompleto

Acordei sobre este poema inacabado
espatifei as páginas em branco
e senti que não queria difundir
nada para aqueles espaços despojados
mas rasguei as palavras com cólera
e embrenhei outras para ali
como um puzzle

Adormeci sobre este poema
que nunca será concluído
porque quem o finalizará
serás tu
e não eu…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29 de Maio de 2005

Emotional

As palavras adiadas
são sempre mais difíceis de chegar ao coração
Trocar palavras é fácil
difícil é suportar este silêncio
Beijar o tempo diletante
e observar o voo rasante
das andorinhas
que trazem o prenúncio do Verão
que se aproxima
e as águas cristalinas da nascente
seguem em direcção
a este mar
despido de emoções

© Rogério Saviniano Telo
29 de Maio de 2005

May 28, 2005

Notícia

Já a noite caiu do céu e a Ásia
vista do universo
é um continente imerso no escuro
a África aguarda que o planeta role
para se vestir também de negro
e depois a Europa
mais tarde a América sem o sol
para sair da noite
à volta do mundo
consome
as próprias luzes
e alguém
morre de fome
de 3,6 em 3,6
segundos.

© J. T. Parreira

Os Salmistas

Adormecidos entre liras

cujas cordas resistem
à dureza do dedo
e do ouvido

os salmistas

acordam manhã cedo
por causa da insónia
seus dedos levantam-se

plantam

as hastes do som
entre o silêncio.

© J. T. Parreira

May 27, 2005

O silêncio do fim do dia

Debaixo deste sol ardente
refrescas as faces lívidas
porque a noite
essa fez-se
para te vestir o sorriso
que trazes como arma
para que a morte
não te encontre de borco

© Rogério Saviniano Telo
27 de Maio de 2005

Extase

Abrasa num anseio que consome
tudo o que há na epiderme
chega como uma flecha
que corta minha respiração
e arqueja num suspiro
sufocado. Num momento
sorvo este ápice de volúpia
envolto em encanto
a anatomia confunde-se
e nossos corpos unidos
extravasam odores
numa limpidez de sentimentos
Nossas bocas seduzem-se
e o éden abre as suas
portas…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 27 de Maio de 2005

Mistura de corpos com cores

A seringa penetra na carne
provocando uma trovoada de sensações
que irão se repercutir no teu âmago
e
só então te darás conta
que não foste feita
para este pesadelo
que te assola o cérebro a todo o momento
como eu queria te dizer
que te esperei
e que continuo a te esperar
para te mostrar o outro lado
onde a vida tem outras cores
que não essas
que teimosamente procuras

© Rogério Savininano Telo
27 Maio 2005

May 26, 2005

Laços

Não insisto. Falar de ti é como
falar para mim. Tu não me ouves
nem eu sei já o que disse
ou digo. As palavras escoam
e caem errantes
ali no chão manchado
das ruas por onde vagueamos
ou será que não são ruas
são vielas sem saída. São labirintos
repletos de líquens
Não remordo. Guardo as palavras
num cofre de desesperança
Estou cansada da expedição. É como
se chegasse de uma viagem
e afinal nunca houve largada
o barco nunca ancorou. E eu não saí deste porto
Falar para ti. E dizer que queria
ter o universo na mão. E nada
tenho, é tudo fútil
e que apenas resta um cofre
com palavras supérfluas
do qual eu perdi a chave
e não sei a senha
para desemaranhar
o sigilo para abrir e
deixar emanar estas palavras
que nunca ouvirás…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 26 de Maio de 2005

May 25, 2005

Farsa

Não queria estar infeliz. Meus olhos opacos
oscilam entre as lembranças. O pesar
é tudo o que resta. Suprimo a mim mesma
a falsidade. E sei que foram só mentiras
não tem término nem princípio. É mentira
tudo faz parte de um jogo. Um passatempo
com pedras viciadas
estigmatizado com precedência. O sol teima em
assomar. Mas para mim é só escuridão
tristeza dentro de mim
Dor rasgada que me machuca
como gumes de uma navalha afiada
quis aceitar a mentira como verdade
e na minha permanente confusão
sempre me enganei
mentiras, equívocos, promessas vagas
quero acordar deste marasmo
bate-me, sacode-me
deixa que a loucura tome conta de mim
Estou louca!
louca de dor, alienada por manter
a grilheta desta ilusão….

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 25 de Maio de 2005

Lápide

Não sei porque estou aqui. Se ninguém me
solicitou. Não sei o que faço deste sentir
desta maneira de ser e estar
e não viver
Tenho uma dor sem renitência que me
faz estar aqui sem querer
Esta lápide não tem flores. Não tem nome
não tem nada. É só uma lápide
modelada em mármore. Não sei
porque estou aqui neste
cemitério…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 25 de Maio de 2005

Viva la muerte

Derramo o vinho sobre o teu baixo ventre
e pressurosamente
sorvo o líquido escalarte
que escorre do teu monte de vénus
fruto tisnado pelo sol
que banha
até o limite
os contornos
da tua boca
templo sagrado
onde as espumas dos mares
encontram o começo e o fim dos dias

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 25 de Maio de 2005

May 24, 2005

Que farei com as palavras

Peguei nas palavras
e atirei-as ao ar
estas dissiparam-se
dançaram com o vento
e voltaram de novo a mim

Que farei com estas palavras
Já sei
vou juntá-las
e farei
um corolário de desejos
como se fosse
uma mantra sagrada
e depois guardá-las-ei
nos jardins perfumados
de Alexandria
Quando pressentir a morte chegando
então
de novo
irei devolvê-las
ao espaço sideral
e o vento
será o seu companheiro
de viagem

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 24 de Maio de 2005

May 23, 2005

Avó Leonor

Avó Leonor

Uma avó negra que tive em silêncio
avó de branco
riso que nunca poisou em mim
o algodão do seu olhar
avó de negros
olhos fazendo luz
entre a noite transparente
sob o luar dos fogos
Avó negra
que invocavas deuses
deuses fechados como os sons
que à floresta se reservam
toda a minha alma
é cruzada por ti
como a noite
trespassada pela chama.

© J. T. Parreira

Mário de Andrade e Álvaro de Campos: uma identidade

Álvaro de Campos, «dentro» de Fernando Pessoa Mário de Andrade

No meio do caudal que jorra da torrente sensacionista de Álvaro de Campos, no início de um pequeno verso (o 41º) do poema «A Passagem das Horas», surge a revelação e o estímulo para um entendimento de Fernando Pessoa, o seu retrato psicológico em que se consubstancia a sua heteronímia.

«Multipliquei-me para me sentir».

Em determinada ocasião, o Poeta afirmou, a propósito do seu refúgio nos filósofos gregos e alemães, no ambiente austeramente cultural britânico e do seu consequente bilinguismo, que se «libertou para dentro». Exceptuadas outras causas psicológicas, do foro da auto-psicografia pessoana, o seu esoterismo, o seu gosto pelas ciências ocultas, esta libertação para o seu interior, também esteve na base da criação dos heterónimos.

Mas a identificação com o Poeta brasileiro Mário de Andrade consiste na leitura de alguns versos do autor de «Pauliceia Desvairada», que decalcam um vocabulário e um estilo sensacionista. Por exemplo, Mário de Andrade em «Louvação da Tarde», cujo processo poético liga um sentimento do Eu integrado na paisagem, escreve:

«O doce respirar do forde se une / Aos gritos ponteagudos das graúnas».

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artigo assinado por J. T. Parreira.

Pluma

Piso o risco
edifico defesas
admiro o sorriso
e olho o mar

Sorrio. E finalmente
ofereço-te este poema
leve como uma pluma

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 23 de Maio de 2005

Navegar é urgente

Quando a noite cai
gostas que te encoste o peito
e que
te marque com carne viva
És a serpente
que me hipnotiza
e deslizas
pelo meu corpo
deixando-o exaurido
e saciado
Dou-me a ti
e sugo o fio de mel
que escorre
deste tempo
que não se repetirá
Ou será
que nos banhamos por mais vezes
nas águas
deste rio incerto
onde as lagartas
parem
os dias onde navegamos

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 23 de Maio de 2005

May 22, 2005

Extensão para um poema

Já não caibo dentro deste poema. Não oiço
porque minha voz se extinguiu
nem repercussão deixou no ar. Cheira a cinza
este poema é só um filamento de mim. Que me corta o
decurso me esfarrapa o peito e
me aperta de nostalgia

Fui embora… porque não cabia neste exíguo espaço
onde não existia lugar para mim.
Esta inquietação é seca… morrerá
a escassear de água
não extrairá um verso
sequer e nada será
escrito na penumbra e na afabilidade
da minha transparência…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 21 de Maio de 2005

Ao sul das tuas coxas

Longe de mim
longe de nada
vomitas
as palavras
que os vates
não se atreveram a pronunciar
Transportas em ti
as manhãs
grávidas
de nevoeiro
e as espumas
que o meu mar
derramou em ti
Estou ciado
da tua presença
Fico aguardando
que
os pássaros
tragam de volta
o sul das tuas coxas

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 22 de Maio de 2005

May 21, 2005

As Palavras

Diluo as palavras no papel. Assim como um pintor
atenua as cores na tela
Por vezes elas saem em cascata. Outras vezes…
os espaços ficam esvaziados, e tudo se torna supérfluo
assim, inútil… sou eu neste dia. Engenho um nome
que cai como uma gota de água
na execução dum poema. Que não é poema
são simplesmente rabiscos. São ternuras
de tranquilidade que encalham
mas ficam ali como uma pedra
fria e estilhaçada. Com uma pedra posso
fazer um poema?
Posso desbravar essa pedra! As pedras têm alma
não sei… respondeu-me um anjo
Diluo estas letras nesta pedra. Há muito tempo
que deveria ter descoberto esta maneira
tão simples de conseguir
inventar esta lentidão de glória
guiada pela imaginação das palavras
com asas de gaivota…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 20 de Maio de 2005

May 20, 2005

Nocturno de Mim

Quando a noite chega e meus olhos
são uma sala vazia, quando a noite chega
e olho meus livros, os meus utensílios
com palavras na penumbra, é a hora da luz
iluminar com a sua água sobre a mesa
quando a noite chega
quando chega num cigarro abortado
antes da última cinza, quando a noite chega
e as janelas transparentes no escuro
quando chega a noite
estou cercado de perguntas, a algumas
respondo, outras cingem-me os ombros
quando a noite chega sou como nuvens
que procuram casa sem parar seu rumo.

© J. T. Parreira
20-05-2005

Guardador de Palavras

As palavras elevam-se nos ares
e despenham-se com a violência
do costume
Eu sou o aprendiz
de domador de palavras
Não é tarefa fácil
pois
umas são mais ácidas
que outras
e ferem como punhais
a todas distribuo carícias
e estas ciosas
das minhas carícias
deixam-se amansar

eu conto-as
e entrego-as aos poetas
para que
estes
cuidem delas

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 20 de Maio 2005

May 19, 2005

Tela Vaga

Rasuro aguarelas
faço enigmas
elementares na tela

Bato e sacudo o pincel
nd no canto inferior
eis a minha marca
rabiscada ali e entrelaço
s que quer dizer
SOL

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 18 de Maio de 2005

Locus horrendus

O meu poema
a vertigem inebriante
de saber que virás
ter ao aconchego da minha língua
e que
as nossas dermes fremirão de prazer
toda a natureza vibrará em sintonia
porque
tu és
o elo que une o sagrado
e o profano

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 19 de Maio de 2005

May 18, 2005

Cinco Poetas entre dois rios (sobre a poesia curda e afegã)

«Tenho pousado o ouvido sobre o coração/ da terra. /Falava de amor, do seu amor/pela chuva,/ a terra.»
Sherko Bekas, poeta da resistência curda.

Ouvintes das línguas árabes, tanto a língua dos média, como a do Corão, não consideramos que as mesmas sejam muito felizes para a fala poética. O idioma árabe, de um modo geral, é áspero e gutural, mas a significação e a intimidade das palavras podem ser preciosas e então, como diria o poeta William Carlos Williams, ouve-se o sentido, quer seja em tradução para o português, inglês ou o italiano.

Os versos com os quais abrimos este artigo, sugerem-nos essa dimensão em que o sentido se transforma em sentimento da pátria, embora nos apareçam numa terceira língua de chegada (foram traduzidos do italiano).

A forma expressiva, até a irregularidade da sua métrica, seja como for propiciam o cântico, e, sobretudo, não se distanciam dos recursos da poética moderna. O seu autor, Sherko Bekas, nascido em 1940, ministro da Cultura da Região autónoma do Curdistão iraquiano em 1992, reúne na sua actividade poética o lirismo e a luta da resistência curda, o som telúrico de alguma da sua poesia não evidencia nenhum desusado bucolismo, é mais poesia para preparar a terra para um combate pela identidade.

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artigo assinado por J. T. Parreira.

Breve Arte Poética

É a palavra
o que o poeta tem ao seu alcance
que desarma os ponteiros do tempo

Nenhum compromisso com a hora
o minuto, o segundo, tudo
será a transparência
incorpórea no deserto
da brancura do papel
ao silêncio
e o seu amplo boicote

Quantas coisas podem
tentar a entrada
na moldura do verso?

Mas venha primeiro a luz
para derreter o bloco
da noite.

© J. T. Parreira

Angústia tingida de branco

Línguas de fogo
incendeiam o branco
onde escrevo
Este espaço torna-se opaco
e ferido de nada
Há um muro intransponível
para além deste espaço
e
aos poucos
diluo-me nesta morte adiada
sabendo que
a loucura virá ao meu encontro
e arrebatar-me-á
às águas revoltas
desta época de barbárie

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 18 de Maio de 2005

Oração

Brota de meu olhar. Estes pingos
de mutismo. Esqueci há muito tempo
como se reza
Fecho os olhos, mas não recordo
nenhuma súplica
Cai de meu olhar. Um frio que
me anuvia. Fumo um cigarro
sem sequer saber porque
o faço
E por entre espiriforme
de fumo
artilho e rezo
com os olhos semicerrados
uma oração que ninguém
entenderia
Pois nem eu própria
a entendo

© Piedade Araújo Sol
Funchal,17 de Maio de 2005

May 17, 2005

Renascer

www.thousandimages.com - Paulo Castro

A geada matinal vem de mansinho
demarcar a sua posse
por isso
encontro-te gélida sobre o manto verde
que a terra vestiu
para que tivesses
o sublime prazer
de provares o mel de Alexandria
Quando acordaste
balbuciaste palavras doces
que eu no momento
não as consegui decifrar
Hoje sei
que querias dizer
que as afluentes do teu rio
desaguavam em mim
e que nem a eternidade
nos separaria
Agora que o teu corpo
se juntou à terra que tanto amavas
deixa que
te deseje boa-noite
meu pássaro triste
que feneceste
para que eu
possa continuar
a cuidar do teu regresso

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 17.5.2005

O Muro

Tão alto como o voo dos pássaros
ou tão alto que nem os pássaros
consigam passar
o muro
tão perdido
entre as nuvens, acima
tão acima destes olhos
que não acompanham
as aves, setas que sobem
como a dúvida
de não romper o cimento
Tão alto onde parece haver luz
o muro vai entrando
como a proa cujo barco
vai em silêncio, o muro
tão alto que nem os pássaros
o distinguem
vai haver uma altura
em que as trevas o tingem.

© J. T. Parreira

May 16, 2005

Eco

Meu grito ecoa
cabalmente
na planura
confunde-se
e desintegra-se
no vácuo
brado com raiva
e sei que não
consegues ouvir
mas eu transmito
da única forma que posso

E meu eco se desfaz…

© Piedade Araújo Sol
Porto,04/05/2005

Elegia para um corpo

Por entre brumas e devaneios
deparo-me
com a manhã
entrando pelo meu corpo
e devorando
o que de mais sagrado
existe em mim
a tua imagem
Fico fraco
diluído no ectoplasma
grito
mas a manhã
não me devolve
a estrada
que eu necessito
para alcançar o teu corpo

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 16 de Maio de 2005

May 14, 2005

Dia da Criação

A boca procura ansiosamente
as palavras esvoaçantes
que se despenham
em voo rasante
daqui
deste ponto
a este
do teu corpo
desenhado no futuro
que se avizinha
e que transformará
todo este mundo
ávido de outros
mundos

© Rogério Saviniano Telo
Funchal. 14 de Maio de 2005

May 12, 2005

A Nova Máquina Lírica

Trinta e duas teclas como um dedo
abrem-se para a letra
branca, ainda inconquistada
que música está, que mundo
para lá do batimento em harmonia!
Que saltos sobre as teclas
atingirão outras galáxias?
As palavras, até as hesitantes
acabam por quebrar o silêncio
do documento em branco
Poemas, sonhos, invasões do papel
repousos em pastos verdejantes
águas que reflectem azul
a tranquilidade do céu
Esta máquina lírica é o dia
mais livre da minha vida.

© J. T. Parreira
5/2005

Elegia Para Um Eco

A bruma da tua cidade
abateu-se como uma silhueta sem extinção
e recolheu às montanhas
fugiste e o peso do silencio
é tão duro como animador
És um lobo que perdeu a sua fêmea
e sentes o coração despedaçado pela dor
O chão que trilhas
é um tapete de folhas
E um uivo ecoa na noite
é o teu
trespassado pelo vento
que talha a noite
A solidão instala-se em todo
o teu corpo de lobo solitário
Desertas para um local
ainda mais remoto
e ficas ali no cimo da montanha
esperando a morte
envolvendo uma nostalgia
que se prolonga através
da tua expectativa

© Piedade Araújo Sol
03/05/2005
Londres

Canção Para A Morte De Um Pássaro

Cresceu junto de outros pássaros
equilibrado no azul
na linha imaginária
do universo
pequeno pardal a suspender
a respiração de um verso
sobrevoando espelhos de água

Cresceu metendo o sono
entre a plumagem
a pequena cabeça repousando
dos voos rasantes ao fundo do universo

Quando desceu entre os campos
e a copa imensa do céu
no lugar do seu coração
alguma coisa bateu, e bateu
no asfalto
o minúsculo coração.

© J. T. Parreira

May 11, 2005

Corpo-Graal

Se visitares o meu olhar
ficarás ciente
que a jusante da minha alma
se situa
toda a míriade
de novas e pulsantes sensações
que o teu corpo
acorda em mim
Deixa que migre em ti
e dar-te-ei a conhecer
a minha demanda
por corpos nunca dantes navegados

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 11 de Maio 2005

May 8, 2005

Viagem ao fundo de mim

A boca contorce-se
com trejeitos de amiba
e as mãos dançam
numa inquietude plena de afagos
Os corpos transpirados
voam
acelerando o ritmo binário
trazendo prenuncios
de explosão de vida
não de morte
e o silêncio da noite
grita
e este grito
prolonga-se dentro de mim
e de manhã
acordo cansado
mas feliz
por te ter possuido
neste sonho
que de tanto o sonhar
já se tornou efectivo
dentro dos meus poros

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 8 de Maio de 2005

May 6, 2005

Dulcineia

Dulcineia

Cada vez mais
as sombras povoam os meus sonhos
Quando terei a doce ventura
de ter
doce Dulcineia
faz de mim
o teu doce mel
destroi a colmeia
e traz o vento
que habita em ti
deixa-te dormitar
neste silêncio
e espera que a chuva miudinha
se impregne no teu corpo
Depois solta-te
e voa livre
neste espaço que te pertence
por direito próprio

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 5 de Maio de 2005

May 5, 2005

Aluvião

Dispo-me dos fantasmas que me habitam
e desço célere as escarpas
que conduzem
a esta manta de palavras regorgitadas
por issso
gastas
e que povoam
este passado bafiento
fazendo lembrar
que as quimeras
são flores secas
neste jardim abandonado a si próprio

Rogério Saviniano Telo
Funchal, 5 de Maio de 2005

Via-Sacra

As palavras esvoaçam em volta deste espaço vazio de nada
e o vento transporta-as bem para longe
dando início a esta via-sacra
que é o teu corpo
deitado na vertente deste precipício
onde o sol tisna a pele dos dias
que sulcam este mar
onde os barcos deslizam
em águas pintadas de azul turquesa

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 26 de Março 2005

Navegantes do desejo

Navegamos neste mar salgado
somos prisioneiros deste tempo
movido a ódio e carícias de fogo
o vento quadrante
teimosamente
deixa a tua mão resvalar
para o norte do meu sexo
e
de repente sinto
que estou vivo 

© Rogério Saviniano Telo
15.04.05
Funchal - Madeira

Mala punica

Embrenho-me
na floresta-noite
e desafio a escuridão
que se agiganta
a cada passada
O sono tarda em se anunciar
como resposta à minha ansiedade
imagens flutuantes
emergem
trazendo de volta
a obsessão de voltar
a te possuir
fogo fátuo
miragem alucinante
e para não me perder
refugio-me
no teu corpo-oásis
que ciosamente
criei  para mim
 
 
© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 23 Março 2005

Teoria

Inclino-me e estremeço
o espelho dá-me
certezas que não quero ter
A alienação é branca
ou será como um arco-íris
debato me violentamente
e expulso os espectros
que teimam em me acossar
Respiro o cheiro das plantas
e dos plátanos
e bebo a alegria
que entretanto se apodera
de mim e de todo o meu ser
Assim de perfil
abro meus braços
esguios e frágeis
e abraço a vida
que se me afigura
veloz e inteligente
A loucura é absoluta
é branca e trémula
é doce
e contagiante
É como o passar dos dias
iguais
desiguais
E apanho as cerejas
que a cerejeira
teima em não querer
deixar cair….

 
© Piedade Araújo Sol

Latitude 30º

Há um eco dentro de mim
dentro de mim há um eco
Em mim o eco
faz-se vento
e agiganta-se
como um gavião prestes a levantar voo
Será assim a morte
um eco que se agiganta
e arrebata-nos
para o vazio da noite eterna
 

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 28 de Março 2005

Finisterra

São horas meu amor
de partirmos
juntemos os nossos corpos
e fruamos do prazer
como se fosse
o último dia das nossas vidas

© Rogério Saviniano Telo
Funchal

Rebelde

Inteira mas devorada pelo fogo
que se extingue nas profundezas da alma
o que a  água não apagou
e tudo ficou aberto com um lago
seco onde agora é só terra ressequida
infecunda, onde as sementes
não brotam
 
Rebelde,
serei
ingénua
pura
como a terra onde nada nasce
nem as plantas luxuriantes
nem as ervas nocivas
 
Inteira, mergulhada na meia-luz da noite
e olho
o cavalete, os pincéis
as tintas que se confundem
em espirais de cores
olho delirante a tela
e desenho a ternura espalhada na face…
ali inteira
na pantalha por pintar…
 
 
© Piedade Araújo Sol
19.Abril.2005

Num Campo em Weimar

60º ano da libertação de Buchenwald

 
Noutro tempo só os mortos sorriam
num caminho onde o perfume
do bosque de faias prolongava
um poema de Goethe
que resistia, resistia
noutro tempo só os mortos
espreitavam a sua própria morte
só os mortos
eram um costume
num bosque de sombras
pesadas como pedras
e de vozes
de um carrasco triste
onde o silêncio lamentava
nas faias uma canção de Liszt.
 
 
© J. T. Parreira

Corpo Estelar

São oito horas
o vento sudão
sopra uma brisa refrescante
sobre o teu corpo tisnado
despertando em mim o desejo
e o teu corpo cavalga
esta bruma que teimava em persistir
São oito horas
o teu corpo jaz
sobre esta pedra fria
Já nada resta de ti
apenas o invólucro
qual crisálida
que se transformou em estrela
Agora és a estrela mais brilhante
deste firmamento
que se situa a nordeste
do ponto em que combinamos a tua amaragem
 

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 8 de Abril de 2005

Chove dentro de mim

Hoje acordei
com o vazio de ti
partiste sem dizer nada
o que dirão as flores
que já não terão as tuas carícias
e o que dirão os pássaros
que já não terão as sementes
que me ajudavam a crescer
São seis horas
arranco o punhal
cravejado com as tuas lágrimas
e num gesto mecânico
arranco os olhos
Agora que a escuridão
me inunda
passo os dias que me restam
afagando a forma invisível
que criei
e ilusoriamente
acaricio o corpo
que outrora fora meu
 

© Rogério Savininao Telo
Funchal, 9 de Abril 2005

Ópio

Narcótico caustico
Droga infiltrada
o sangue que me
corre nas veias
És tu que me fazes
viver assim anestesiada
É por ti que me desfaço
E é em ti que me perco
me introduzo
me desenlaço
Corpo de homem menino
mar tumultuoso
e por vezes tão calmoso
Meu sonho imperfeito
Minha droga consumada
Resquícios de palavras soltas
Vagabundeiam na tarde
Que se dissipa
que traça a noite
E o luar  usurpa
meu leito vazio de ti
Fico ali à espera
Dum corpo ilusório
e tão autêntico
mas tão inacessível
Miscigenado de sabores
odores e trejeitos
Aliso a roupa
E atiro-me com impetuosidade
para cima dos lençóis de cetim
Tenho uma noite pela frente
fecho-me e adormeço
Contigo….
ali a meu lado…
ou tão-somente no pensamento
 
 
© Piedade Araújo Sol
Março/2005

Solidário

Sinto como de alguém a solidão
do sol
Não aquela que percorre
no escuro o solstício do verão
quando as cores vestem todos
os poros das mulheres
Mas a solidão do lugar
mesmo na manhã
quando ainda assim o olhar
não quer
passar pelo fogo
Sinto como poucos a solidão
do sol, vê-lo
sem poder ser olhado
por toda a menina dos olhos
Sem olhos nus e límpidos
do homem
tudo lhe faltará.
 
 
© J. T. Parreira

A outra margem

Vem deitar-te junto a mim
e diz-me que a muda das carícias
se faz em dias como este
unge o meu corpo
com os teus lábios
depois entrega-o ao vento Zéfiro
para que este acaricie
a minha pele
Não chores
a minha partida
pois os elementos encarregar-se-ão
de fazer chegar o meu corpo
intacto
ao outro horizonte
prenhe de miragens
e de novas vivências
porque
só tu
consegues transformar
a lei deste universo

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 19 de Abril 2005

Na Cidade

Esgalho esta tarde
que se abate sobre a cidade
e canto este poema
sem rima
e sem conexão
deslaço este cantar
e olho o por do sol
reflectido nas águas do mar
ineficaz a palavra
não sonante
neste poema presente
e tão distante
 
Renovo esta noite
que se abateu sobre a cidade
embrenhada em sombras
e palavras dispersas
ríspidas e cansadas
faço um sorriso
aberto e franco
e com um andar sublime
enfrento a pureza
do meu poema
transbordante de uma lassidão
que me tolhe o prazer
de sorver o limiar
da minha lucidez
 
 
© Piedade Araújo Sol

Os Andarilhos

A planta dos pés na terra, um passo
atrás do outro, os olhos
humilhados onde passam
conhecem só
o calor húmido do chão
e as formas de uma nuvem
que o ímpeto das águas
rompe de repente
 
Hoje como ontem
o sol sobre os ombros
um dia após o outro
ligados ao fundo
por estrelas
nos celestes caminhos
 
A noite vem deitar os corpos
nos sonhos aguardados
no coração dos andarilhos
com paciência, a treva
que vem voando cega.
 
 
© J. T. Parreira

Abril sempre

É urgente
que nos reinventemos
e só assim
poderemos trespassar
a causa do desejo
que se manifesta
neste nada de ontem
mas que é prenúncio
de te ter
em toda a tua plenitude

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 24 de Abril 2005

Exílio

Os montes deram lugar
a este refúgio dissimulado
onde a brisa me afaga
mansamente os cabelos
e onde o rio corre
indolente para a foz
Aqui tudo desabrocha
ante meus olhos
Aqui te venero e idolatro
te tenho
Não há mapas, não há tempo
só este abrigo inabalável
onde me perco e me encontro
Os montes deram lugar
ao nosso exílio procurado
ao nosso amor compartilhado
onde o repouso do gladiador
se acomoda
trago em meu olhos
o brilho dos teus
e assim quero ficar
a olhar o sol
e comer os frutos maduros
e a olhar as estrelas
que por vezes parecem
tremular sobre os teus cabelos
 
Os montes deram lugar
ao nosso amor partilhado….
 
 
© Piedade Araújo Sol
12.Abril.2005

A Despedida

Entre as mãos e a parede
a cabeça dela segura
e agarra o mundo
depois, um a um
desata os dedos
dos cabelos
a corda
presa ao cais.
 
 
© J. T. Parreira

Dizer Sem Dizer: os sons na poesia de Huidobro

Um prefácio e sete poemas, designados por cantos, constituem o livro torrencial de Vicente Huidobro (1893-1948), poeta chileno, cuja linguagem se desloca do centro da poesia modernista, no conceito da América hispânica da primeira década do século XX, para a busca do vocábulo puramente fonético, aparentemente sem poesia, mas exibindo uma estrutura onomatopeica como significante apenas do próprio som.
Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer «al horizonte en la montaña» assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).

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O Fim da Viagem

Largo as amarras suspendo este brado
Não regresso porque ainda não fui
E não fui porque não irei
Na bruma da tarde que se desvanece
E na noite que desponta enlaçando o mar
Murmuro e constato que
não tenho bússola ainda não a encontrei
Será que ficou além no poente
não saberei jamais
Nada será fim sem fim
sem antes ser princípio
E o amanha é hoje
porque hoje nunca será ontem
E o ontem fomos nós
construindo estes sonhos
Repletos de cores sem cores
Como barcos de papel
que navegavam e chegavam
Ao cais das nossas utopias
fim desta viagem
tão cheia de abismos
envoltos em ingenuidade
Timidamente ofereço
As pétalas das flores multicores
Com que farei uma tela imaginária
Que guardarei para sempre
no interior do meu pensamento
juntamente com o passaporte
para o desenlace
do fim da viagem

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 01 de Maio de 2005

O Apanhador de Pássaros

Persegue o essencial
do pássaro, o seu voo
entre as linhas do ar
como um verso que foge
quanto mais aperta o laço
que o pássaro
faz no seu olhar
O pássaro que declina com a tarde
o pássaro barato
e o de muitas cores
e o pássaro apenas impresso
na folha da noite que cai
no fundo do Universo.

© J. T. Parreira

Fraternidade em Abril

sem título

Deixaste o teu corpo entregue à barbárie
e os lobos dilaceraram-te as carnes
Hoje tenho uma pálida memória
do teu rosto
Quanto mais o tempo passa
mais sou forçado
a te recordar
doce ilusão
que me condenas
a te prestar tributo
mesmo sabendo
que a barbárie
tende a consumir
a tua já pálida lembrança
Adeus
meu pássaro ferido

© Rogério Saviniano Telo
Funchal - Madeira, 25 de Abril de 2005

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