madrigal blog de poesia

June 29, 2005

Barco Sem Porto

Chego nesse barco que nunca fundeou
E fico ao largo. Espreito as casas ao longe
serpenteando a ilha
muitas pintadas a cal branca
Sem querer, vejo a melancolia
em forma de nuvens fofas e
salgadas como este mar excessivo
que me atrai e me domina
Regresso a este porto. Sei que não fico
porque não quero. Não sou de lugar
nenhum
Sou só um barco
que fica breves instantes
porque não tem pátria
e sua moradia será indefinidamente
este mar…

© Piedade Araújo Sol
Funchal,29 de Junho de 2005

June 28, 2005

Nocturno andante

www.thousandimages.com

Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da morte

Eugénio de Andrade

Tenho medo
de dizer que te amo
por isso resolvi escrevê-lo na parede
tenho medo das multidões
por ti juntei-me à plebe

O medo habita-me
e circunda-me
enche-me a casa de fantasmas
que eu sei
que são irreais
mas
o medo que eu sinto
é de talvez
não viver o suficiente
para te amar

Corto o cordão umbilical
que me prende a esse tempo de barbárie
e mergulho nas águas
cristalinas
que brotam do teu corpo
e agora
posso dizer
que já não tenho medo
de ter medo

Amo-te vida

© Rogério Saviniano Telo

Pescador de sonhos

www.thousandimages.com

A noite é uma terna amante
leva-me por meandros que eu desconheço
e dá-me a experimentar cheiros enebriantes

Quando a luz começa
a se mostrar
a noite despede-se
com a promessa de voltar
e de novo me arrebatar
pelos espaços esconsos
do meu quarto
despido de emoções

© Rogério Saviniano Telo
28 de Junho de 2005

Súplica

Fico imutável. Sofro com o teu gemer
e queria te dar um sopro
de meiguice e não posso
A tua vida
não se extingue, não sem antes
te cingir, como quem abraça
um filho que regressou de
mais uma expedição.
A noite está gélida.
Mas eu faço-te companhia,
não tenhas medo
não chores
eu estou aqui!!!

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 28 de Junho de 2005

June 27, 2005

O poeta começa o dia

Cada manhã lança âncora
ao soalho firme, olhos nos pés
como num primeiro espelho

Descer do sono
sacudir-se do pó
cósmico, das estrelas
restos da noite
e marcas dos sonhos
que resistem ainda

Já no mundo os corações
giram apertados, e entre paredes
de tijolo devassáveis
os relógios batem o tempo
em velocidade

O dia lá fora já enverga
fatos e vestidos
rigorosamente matemáticos
– não os seus –

está enfim solto no vento
ave frágil
nos olhos de Deus.

© J. T. Parreira
27-06-2005

Era uma vez

Uma princesa vivia dentro de mim
fora desígnio dos deuses
que assim fosse

Um dia o meu coração explodiu
e a princesa voou para uma nuvem

Sempre que o céu se apresente com esta cor
é sinal que a princesa está com saudades
dos carinhos que eu lhe distribuia

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 27 de Junho de 2005

June 26, 2005

Na sombra das palavras

A poesia não é feita de palavras,
mas de cólera de não sermos deuses

Agustina Bessa Luís

Bendito seja o ventre
que te trouxe até mim
e toda a míriade de afagos e de ternura

Agora que estás bem longe
sei que foste
um presente enviado pelo deuses

Vou sonhar com o teu corpo
e certamente que amanhã
serei mais feliz

© Rogério Saviniano Telo
26 de Junho de 2005

June 25, 2005

Viver

Custa viver assim às apalpadelas
à espera de coisa nenhuma
os dias são estradas sem saída
e já não há sonhos
só um sofrer sem som
uma mágoa serena e tranquila
um egoísmo compartilhado
entre seres humanos

Custa viver assim às apalpadelas
quando não existe motivo nenhum
para coisa nenhuma
e onde há música algures
rostos desiguais desfiando sorrisos
em espaços volúveis
cheios de tédio disfarçado

Custa viver assim às apalpadelas
sofrendo tranquilamente
numa tarde quente de Junho

© Piedade Araújo Sol
Junho 1980

June 24, 2005

Respiro

Tudo porque tu ignoras
que há leitos por onde o frio não se demora
noites rumorosas de águas matinais

Eugénio de Andrade

Esperei por ti na boca do tempo
as horas escoaram-se
e tu não chegaste

Que é feito de ti

Depois soube
que resolveste abraçar a eternidade
e que acharam o teu corpo
vogando nas salsas ondas
deste mar tingido
de dor

© Rogério Saviniano Telo

A Corrida

o toureiro El Fandi agredido pelo touro

Para El Fandi

Homem e touro se desarmam
um ao outro
tocam os corpos
como as setas
tocam o alvo
roçam-se o traje de luces e a noite
Vão colorindo o vento
até ao chão da praça
homem e touro
não se negam
até que o sangue
e a areia se trespassem.

© J. T. Parreira

June 22, 2005

Prelúdio

Não entre nos meus sonhos
não quero que os desvende
aquilo que já sabe previamente
Sabe! Eu acho que as colinas serão nossas
os arbustos que crescerem
serão da terra
e nós nos transformaremos
em sementes
seremos as espigas que crescem
nas searas
seremos campos à espera
da água que caíra
dos céus
não entre nos meus sonhos
eles são meus
não os queira deslindar
porque até para mim são indecifráveis

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 22 de Junho de 2005

Se

Se…
Se vieres ao meu encontro
traz o ódio
e a raiva
traz também as lágrimas
e os ramos de jasmim
para que eu me situe

Estou perdido neste labirinto
e não possuo os artefactos
de que Ícaro se serviu

Voarei
em voo rasante
em direcção ao teu corpo
e darei início
à via-sacra morte/vida

Depois num dia de tempestade
dir-te-ei
que somos imortais

© Rogério Savininano Telo
22 de Julho de 2004

June 21, 2005

Se Vieres, Poesia

Se vieres, poesia, vem como a terra
ávida de água da chuva
necessária como lugar
de repouso
Se vieres, como um rosto
que já secou lágrimas bastantes
se vieres, poesia, vem
com os olhos em silêncio
Poesia, se vieres, vem como a dúvida
que nos faz falta
que está por detrás
do esforço na procura.

© J. T. Parreira

[sem título]

Uma afloração da pele mais do que enredos do espírito

Eugénio de Andrade

No meu céu caíu um anjo
pergunto-lho de onde veio
mas este não fala
amanhã ensinar-lhe-ei
a linguagem das tuas mãos

© Rogério Saviniano Telo
21 de Junho de 2006

June 20, 2005

Desilusão

Eu fiz um cântico desse amor
Sem que soubesse
fui seu anjo da guarda
fui serenidade após intempérie
chuvada em tempo de estiagem
gérmen lançado à terra
fecunda
Por vezes fui a sua sombra
e fiz poemas
sem que sofresse
algumas vezes fui
o móvel que não olhou
a roupa que não usou
o perfume que não colocou
fui essa silhueta que nunca notou
num sonho sem rostos
e hoje envolto em nuvens
que vagabundeia no céu
do meu espírito
Farei um hino
tão puro
tão secreto
tão inacessível
que nunca o poderá
cantar
porque a desilusão só
poderá ser este fado
sem ser fado
mas impresso com a marca
dum adeus…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 20 de Junho de 2005

Os poetas também sonham

De que me serve ter lábios
se não posso sugá-los com avidez
e sorver a tua saliva

de que me serve ter mãos
se não posso mais acariciar o teu corpo

de que me serve ter a solidão
se estás sempre presente

Hoje operou-se em mim uma mudança
a partir de agora
não mais terei
as eternas equações
dentro de mim
porque no meu sonho
sonhei que voltavas
vou fazer deste sonho
a realidade quotidiana

© Rogério Saviniano Telo

June 19, 2005

Caminhante

Era uma longa ascensão. No descambado
brotavam musgos áridos que
cheiravam a terra molhada. Derrapei
mas consegui levantar-me
qual viandante
em tempo de caminhada
fracassando, por vezes meditando
mas sempre trilhando…
Foi uma longa subida. Já não
é
Consegui alcançar o apogeu
ao longe um pássaro chilreia
Olho-o
E
Olho para dentro de mim
e só encontro
desilusão

© Piedade Araújo Sol
Funchal,19 de Junho de 2005

No pomar dos deuses

O vento sopra com fúria
e eu agarro-me
a este presente incerto
na esperança
que as manhãs prenhes de orvalho
tragam o unguento
que eu necessito para os meus olhos

Vejo o mundo como os cegos o vêem
só que consigo
descortinar as cores
com que pintei esta tela
pensando em ti

Vem de mansinho
e traz-me
raminhos de rosmaninho
e romãs maduras

Depois
como num jogo de cabra-cega
dar-te-ei a comer
os gomos de carne escarlate
com que se vestem as romãs

© Rogério Saviniano Telo

June 18, 2005

A Matéria Solar

autógrafo do Poeta

A Eugénio de Andrade

Uma pedra ainda fria do silêncio
expõe-se como um corpo
de mulher, franqueia o dorso
ao sol que o Oriente lança
com a sua longa mão
cada manhã ao começarem
as linhas das casas, a copa
das árvores, os telhados
em cujo gume um gato
sacode a sua sombra.

© J. T. Parreira
16-06-2005

Monções de Verão

Os teus lábios clamam por carícias
o teu corpo tem sede …

Entrega-te ao vento Suão
e não tenhas medo
das monções

Os pássaros alados
vir-te-ão buscar
mas esse tempo ainda está longe
não tenhas medo
entrega-te à morte súbita
e deixa que
os oceanos te penetrem com fúria
só assim
ficarás conhecendo
os segredos ancestrais

Vês é fácil morrer
porque é uma viagem com retorno
e eu ficarei silente
esperando por um sinal teu

© Rogério Saviniano Telo
18 de Junho de 2006

June 17, 2005

Obscuridade

Estáticas estão as sombras… além. São fantasmas,
acho que não!! Desaguam sobre mim como
uma prestidigitação
na cidade, nos perfumes que se misturam
com o suor do meu corpo… olho o rio
ali tão perto, lembra-me outro tempo
tão remoto, tão lembrado
as sombras complicam esta determinação
de me compreender a mim própria
Esquisita… esta agitação que me faz
querer pegar num pincel
e tentar expedir para uma tela
as sombras que vejo além
ou será cabalmente
os pensamentos perversos
e nefastos que me fazem ver
e querer apagar
as sombras da minha vida

© Piedade Araújo Sol
Coimbra 09/06/2005

June 16, 2005

Jackson Pollock

Jachson Pollock - Floor

Assim que o pintor se instala no branco
da sua tela, como um poeta na página
árida e branca, não há ainda traços
nem iniciais acordes, a cor
deve como o som vir da ausência
e do silêncio
Assim que o pintor se instala na tela
com os seus olhos panorâmicos
mesmo assim
existem apenas passos
no deserto, que é a tela
branca enquanto está
despida.

© J. T. Parreira

June 15, 2005

Guardião de Idílio

Sacudo calmamente esta apatia
da vontade de te ter
cilindro meus desejos insatisfeitos
errantes num qualquer poente
qual pássaro maltratado
buscando agasalho
amarfanho e arrumo para um recanto
este sentimento

Não se arquivam os sonhos, mas eu
não sei o que faça com eles… embora
também não saiba o que faça sem eles
sobre mim mesma enlaço
esta maneira de ser e estar
e sei que não posso, nem devo
cobiçar esta intenção
que tenho de os querer guardar…

© Piedade Araújo Sol
Lisboa, 12/06/2005

June 14, 2005

Momentos

Entro na noite como
um noctívago entra no dia
às cegas e sigo sem orientação
nem rumo definido… chego pausadamente
encontro-me ali perdida
nesse labirinto de obscuridade
alongada sobre um mar
dum universo que não é o meu
e como entrei, saio devagar
cerro os olhos e perco-me
nos momentos extintos…

© Piedade Araújo Sol
Lisboa 10/06/2005

Free, free at last

Eugénio de Andrade

Ao meu mestre

Os frutos maduros
sofreram a metamorfose

Adeus
mago das palavras
agora já podes sonhar
com deuses verdes
e com cavalos alados
e com as afluentes dos rios
onde os corpos mergulhavam
e se davam mutuamente

Como sussurravas
numa rebeldia agreste
ao ouvido da tua mãe
agora já cresceste o suficiente
e o teu corpo transbordou
para voares livre
com os pássaros
rumo ao Párnaso

© Rogério Saviniano Telo
14 de Junho de 2005

Esse obscuro objecto do prazer

Depois da noite cair
tu afastas-te
e vaiss em direcção ao nada
eu fico por aqui
sem desejo de continuar
o teu sonho
porque as estrelas
já há muito
que deixaram de me iluminar

© Rogério Saviniano Telo
13 de Junho de 2005

Os Vendedores

E achou no templo os que vendiam
lágrimas e ovelhas
os que guardavam à vista
a paciência dos bois
e suprimiam o gesto
mais vivo das pombas
Os que trocavam perdão
ao câmbio do dia.

© J. T. Parreira

June 13, 2005

As mesmas teclas de Eugénio de Andrade

caricatura de Eugénio de Andrade, autografada pelo mesmo

Tu já tinhas um nome e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor
nos meus versos chamar-te-ei Amor

Este madrigal de apenas três versos de Eugénio de Andrade reflecte o que a sua poética possui, entre múltiplos achados, de lirismo da repetição como um acto criador.

A meu ver, uma das características marcantes da poesia do autor de «Obscuro Domínio» é esse andar de palavra em palavra, sugando-lhes o tutano ( ou melhor, para o estado lírico da palavra poética, sugando-lhes o mel), repetindo-as desde 1942, para desencantar o cerne da Poesia.

Esta é, na verdade, a tarefa em que o poeta se reedita, com feliz pertinácia, como ele próprio declarou, em 1971, na obra acima referida: «Recomeço no coração da pedra a juntar palavras».

Ciente da dureza da pedra, nela trabalha para arrancar formas onde o sol da poesia possa estender-se, trabalho de mineiro ou de escultor, é, curiosamente, noutro coração que o poeta repousa, no coração do lume: «Amo o repouso no coração do lume», embora aqui esteja a designar um fruto, a romã.

Esta é também uma das características da poesia de Eugénio, sublinhada há duas dezenas de anos por outro grande poeta, Ramos Rosa, a qual consiste na procura da génese ou núcleo do universo «que seja ao mesmo tempo matriz orgânica e linguagem viva.»

Assim, o descanso do poeta é procurar a palavra, trabalhar a palavra, repetir a palavra. Desta maneira, com o seu segundo livro «As Mãos e os Frutos» - de resto, o primeiro fundamental de uma vastíssima bibliografia - até ao mais recente ( no momento em que escrevo, será «Os Sulcos da Sede», de 2001, o último que li), o poeta insiste em percorrer os seus vocábulos de textura material, para desta se libertar até a palavra ser signo puro, sempre sob o impulso de um vocábulo de acção que é recorrente na linguagem do poeta: recomeço.

E as palavras, que se repetem, começaram por vir de longe, porquanto na obra de Andrade predomina a visão e a memória. Os vocábulos eugenianos vêm da matéria e do que é imaterial, vêm dos elementos da natureza e do universo, da sua mecânica celeste.

Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada.

Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de Ostinato Rigore é também recorrente ao termo «longe» ou à palavra «fundo».

Em «Obscuro Domínio», obra já muito distante, escrevia o poeta: «Vejo ao longe os meus dóceis animais», noutro livro muitíssimo mais perto, no tempo, escreve: «Veio de longe, e mal chegou partiu para mais longe ainda» («Os Sulcos da Sede»)

Por vezes sentimos na sua poesia que existe como que um apelo, uma exigência das palavras para figurarem exactamente no poema. Um dos maiores críticos literários portugueses, e especialmente da obra do nosso poeta, Óscar Lopes, certificou essa recorrência ao escrever «que às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para certo sentido». (prefácio à velhinha Antologia Breve, Colecção Duas Horas de Leitura, 13, da extinta Inova, 1972).

O exercício da leitura da poesia de Eugénio de Andrade é igual hoje, em 2005, ao que foi, com certeza, em 1942, um percurso musical sobre as mesmas teclas.

artigo da autoria de J. T. Parreira
em Janeiro de 2005, escrito para o inactivo site alternância, por ocasião do 82º aniversário do Poeta

June 12, 2005

Ode ao povo judeu

Tive doze companheiros
que me venderam por trinta dinheiros
Fundei uma religião
para dar vazão às minhas ideias
Por ser judeu
fui temido
e por esse motivo
fui perseguido

A minha doce Madalena
lavou-me os pés
e ungiu-os
com a sua boca

Na noite em que o galo cantou
três vezes
fui beijado e traído por Judas

Em nome da religião que fundei
tudo suportei

Hoje quando olho o mundo actual
noto que este difere muito pouco
do meu tempo
só que
com o progresso da ciência
multiplicaram o meu corpo
e a cada dia que passa
morro de novo

Perdoa-lhes mãe
porque eles não sabem o que fazem
nem para onde vão

© Rogério Saviniano Telo
12 de Junho de 2005

June 11, 2005

Que farei com os sonhos de Verão

Esventrar os sentidos
e vomitar a fome
que me assola quotidianamente

Que mais fazer
Que mais esperar

Deixar que o corpo deslize
nesta inércia
que teima em persistir
ou partir para bem longe
fingindo
que as estrelas cadentes
são rubis que a terra
teima em parir

© Rogério Saviniano Telo
11 de Junho de 2005

June 9, 2005

Poema de um homem sozinho

Queria um anjo como esse que enviaste
com as pernas flexíveis
como os juncos no Jaboque
nossos riscos no ar e na água
seriam a dança sobre a música
da torrente
Estou só com o peso dos retalhos
da minha memória, sozinho
apenas acompanhado de dois olhos
e um coração apressado
É noite, mas o medo não
resolveria nada, sequer
acrescentaria um palmo
à minha sombra
Só na luta plena o nome
muda, o nome
novo se alcança
Enfim a manhã virá
rompendo
o novelo do sol
Estou sozinho, em pé
mas fincado na terra
como a lança.

© J. T. Parreira
7-5-2005

June 8, 2005

Auto-retrato do Poeta

O Poeta e a mulher nos tempos da Guerra Colonial

Põe o seu peso na folha
antes que o vento
entre no papel

O poema vem
espalhando cores

Ele se dispõe a salvar
tudo, o mundo, a rosa
o rio que não suspeita
da força das pedras
os pássaros que ficam
no poema, e na rede
das suas asas

O poema está à minha frente
como a chuva entre mim e o dia
o poema dispõe-se a ser
um ar de estrelas
um vento no qual assomamos
o rosto na janela
um ritmo para seguir
com os olhos

O poema toma todos
os riscos da vida
até se não fosse tão triste
a morte, morreria

O poema por fim fecha
o poeta em casa
e agora está preso ao poema
como se desse a última palavra.

© J. T. Parreira

Lendas do vento que passa

No tempo em que os homens falavam
tinham o hábito
de se questionarem
sobre a hipotética
existência de um deus

Porque perderam o dom da fala
desenham nas pedras
as asas dos pássaros
pois chegaram à conclusão
que esses seres alados
são os senhores do universo

© Rogério Saviniano Telo
8 de Junho de 2005

June 7, 2005

O Milagre

Quando os homens cegos começarem
a ver donde vem o silêncio, e as coisas
deixem de pairar no escuro
quando essa impenetrável floresta
da noite deixar de ser uma pedra
de tropeço
quando os homens cegos puderem abrir
o espanto no olhar, sacudir o cinzento
do sono ante as novas manhãs
quando os homens cegos libertarem
pelos olhos a diurna claridade
será o milagre.

© J. T. Parreira

Fogo fátuo

Este fogo que me consome as entranhas
não é um fogo qualquer
é um fogo caprichoso
arrebata-me em espasmos telúricos
e leva-me para paragens
nunca dantes navegadas
Este fogo é o meu inimigo íntimo
com quem tenho de partilhar
os meus sonhos

Agora sei que este fogo
foi um presente dos deuses
para que eu possa
passar o portal da eternidade

Em Abril
mês de todas as venturas
aprendi que afinal
este fogo era fátuo
mas de facto
marcou-me

Hoje a vida tem mais sabor
porque o fogo extinguiu-se

© Rogério Saviniano Telo
Gotemburgo, 30 Abril 1996

June 6, 2005

Andam anjos no meu quintal

Trinta dias se passaram
setecentas e vinte horas diluíram-se
um furacão assolou o teu mundo
as águas diluvianas
deixaram-te entregue aos elementos
o teu mundo desabou

Foi então que vieste ao meu encontro
falamos das tuas intempéries
e de novo o dilúvio aconteceu
só que desta vez
ficaste aconchegada à minha derme
e ancoraste no meu porto de abrigo
e esquecemos as horas e os minutos
até que
abriste as tuas asas
e voaste
rumo ao teu planeta

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 6 de Junho de 2005

June 4, 2005

Movimentos orgásticos

Vem até junto de mim
junta o teu corpo ao meu
e deixa que
o desejo se apodere de nós
que as nossas línguas risquem
o espaço sideral
que a avidez dos nossos corpos
vá desaguar no teu sexo
e que os movimentos orgásticos
nos atirem
para o hexágono das tuas coxas
que o resultado desta troca
se reflicta neste pôr de sol
deixando antever
uma nova viagem
nas agora salsas ondas
dos corpos saciados

© Rogério Saviniano Telo
4 de Junho de 2005

June 3, 2005

A Caça

Vive nos olhos de mármore
do gato o salto
interminável
sobre o pássaro
Indefeso
um bando de pombos passa
escorrega pelo ar
e o perigo desconhece
inominado no felino tenso
Então o gato salta
num silêncio nobre
na fileira dos seus dentes
e nas garras
o voo do pássaro prende
Só o pássaro e o gato
ignoram que é a morte.

© J. T. Parreira
30-5-2005

Viagem cíclica

Maio findou-se
e um novo ciclo recomeça

A minha loucura
tomou outra direcção
dirigiu-se para o norte
e eu sou um ser do sul

Aqui começa a divisão das águas
como Moisés
caminho sobre este mar
mas não sei
nem quero saber
o percurso que esta divisão dualista
opera em mim

Só sei que a sul
deixei o meu corpo
entregue ao tempo
aguardando a tua chegada

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 3 de Junho de 2005

June 1, 2005

Maresia

Aqui
neste torrão à beira-mar esculpido
os dias arrastam-se lentamente
e os sentidos
ganham outra leitura
A ilha
é um espelho oxidado
que os ilhéus
não gostam
de nele se olhar
Este esconde-lhes a verdade
e os homúnculos
continuam a cumprir o traçado
que lhes foi imposto
pelos abutres
que gerem o tempo
A única réstea de esperança
é a morte
que lhes trará a eternidade

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 01 de Junho de 2005

Olhai as Aves do Céu

Bird Dance, de Cefyn Gauden

Olhai as aves do céu
voam
de qualquer lado
habitam qualquer lugar
no azul ou no verde
menos nos nossos olhos
Olhai depressa as aves
no céu
Cada pássaro se dissipa
na sua partida
e a velocidade dos olhos
perde-se no voo violado
Olhai nas aves o céu
espaço permeável
ao vento à alta seta
do sonho
Olhai as aves no seu tempo
de comer, de colher o trigo
como um hábito
de estar entre os homens
de colorir as crianças
de adornar o seu corpo
na íntima água.

© J. T. Parreira

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