madrigal blog de poesia

July 29, 2005

Green Grass

www.thousandimages.com

É à noite
que as palavras ficam mais suaves
e que os corpos se mutuam
os gestos tormam-se mais mansos
e o desejo é mais acutilante

Sobre o teu corpo domado
eu cumpro o ritual da estação
mais tarde as chuvas
relavarão
os poros e estes
ficarão orvalhados
como as ervas que habitam
este presente tão incerto

Fica a certeza
o facto de estarmos vivos
agora
amanhã
não sabemos o que o futuro nos trará.

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 29 de Julho de 2005

Sortilégio

    Para a Hortense

Matizei uma pantalha
com olhos de mar
em aguarelas intensas
de onde sobressaiam
as nuvens
e os olhos prenhes
de enternecimento

Pintei uma tela
sem pincéis
com a polpa dos dedos
coordenei as cores
dispersas paulatinamente

A tela não tem caixilho
o seu ornato
é a amizade

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29 de Julho de 2005

Esperança

Com ferocidade as palavras
saíram
assim sem se vaticinar
ditas
sem dó nem misericórdia
articuladas
abertamente
com golpes certeiros
cavados
gota a gota
formando um barranco
desbravando
momentos sentidos

Estou nua
as palavras despiram-me
e o silêncio
que se desmoronou fulminou
a minha
esperança

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29 de Julho de 2005

July 28, 2005

Fantasia

gaivota

Em meu espírito
esculpi numa tarde, um murmúrio
de gaivota
sobrevoando o mar
tinha um adejo espalmado
quase abalroando as águas
serenas da baía
mas voava ligeira
como uma flecha
e nada parecia detê-la
olhei demoradamente
e retive em meu olhar
sua liberdade plena
de graça e beleza
a brisa levianamente
fustigou meu rosto
nesse preciso momento
senti-me
como
a

    Gaivota que em voo raso
    Uniu a minha cisma
    Impressa nesta fantasia

© Piedade Araújo Sol
Funchal,27 de Julho de2005

July 27, 2005

Rosto Oculto

Vagueio como um cão errante. E todas
as noites vejo uma sombra
entranhar-se em meu sono, leve como
uma silhueta. Tem um semblante
que eu nunca consigo vislumbrar

Agarro um látego, e tento sempre
num gesto precipitado
afectar o ambiente

Adormecer de novo
para descortinar
esse rosto que não vejo!!!

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 27 de Julho de 2005

July 26, 2005

Om

www.thousandimages.com

Salvé
corpo sintonizado com as energias cósmicas
bendito sejas
porque
trazes em ti
a alegria que inunda
este universo novo
e portas contigo
a semente que germinará
ao terceiro milénio
e és o arauto
duma nova vivência
da qual eu quero fazer parte
dum mundo mais brilhante
e mais risonho
onde
cada dia que nasce
é uma nova e ternurenta
promessa de
liberdade

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 26 de Julho de 2005

July 24, 2005

A Aldeia

Chagal, «Eu e a aldeia»

Chegam em revoadas as brumas
a aldeia encerra os rostos
das janelas, fecham os cordeiros
dentro da boca os seus balidos
O dia revê-se nos espelhos
quando chega a noite
quando os olhos se recolhem
de todos os sentidos
É o vento que cerca o lume
nas candeias, mas só as adormece
a infinita mão.

© J. T. Parreira

July 22, 2005

A era do vazio

www.thousandimages.com

No tempo da raiva
é prazeroso
saber que
ainda existem corpos
para apaziguar as águas turbulentas
tornando o sonho
mais sonho
e a certeza
de que a a alma
poderá migrar
em outros corpos
e desta forma poder regressar
ao paraíso
Dorme
donzela resgatada
da loucura ébria de La mancha
e que estás predestinada
a acordar quando o tempo da barbárie
se tiver esfumado

© Rogério Saviniano Telo

July 21, 2005

Ausente de mim

Não quero teu sofrimento… despojado
de mim
quero dar tudo o que
perdura de bom
quero ser uma flor que observarás
a cada despertar
um passarinho que ouvirás gorjear
um cão para te escoltar
quero ser tudo, e nada ser
e tudo ter e a nada corresponder
não quero teu sofrer
desamparado
de mim…
conserva as lembranças
dos tempos que já não temos
guarda meu sorriso
estampado no teu coração
E não sofras!!!
Sorri…
antes que
seja tarde demais
para
nós…

© Piedade Araújo Sol
Funchal,21 de Julho de 2005

O Beijo

Cerco-me de meiguice
suspendo silenciosamente
a autonomia
e o feitiço
de devanear
concebo
um beijo com sabor
a hortelã
Meus lábios entreabertos
roçando a brisa
desliza a estupefacção
que se extingue flutuando
no ósculo que sinto
efémero
afectuoso
embriaga-se em mim
uma louca palpitação
extasiante que me
coíbe os sentidos
e me leva
ao éden desse
beijo
que nunca trocamos

© Piedade Araújo Sol

July 19, 2005

As Redes Tristes

Pablo Neruda: -Como são as redes de pesca?
O Carteiro de P.Neruda: - Tristes, as redes são tristes.

Chamavam dos ramos do mar
os pássaros marítimos
chamavam do fundo
do volumoso silêncio
os peixes, como se pudessem
ser os olhos da noite
chamavam
uma sereia de vento e sal
e os pescadores foram
lançando a pulso
-que resiste - as suas setas
na forma das redes tristes.

© J. T. Parreira
7-7-2005

Úterus

Neste azul infindável
perco-me
mergulho no mais profundo
de ti
e descubro
que a eternidade não tem nome
assim sendo
vou dormitar neste azul indigo
e deixar que as luas passem
quando acordar
irei colher os frutos
antes que estes caiam podres
porque tu ensinaste-me
que os frutos devem ser colhidos
no seu tempo próprio

E tu será que soubeste
escolher os corpos
que em ti migraram
e
que agora só te resta uma ténue
lembrança dos afagos
que alguns souberam dar-te

© Rogério Saviniano Telo
Funchal , 19 de Julho de 2005

July 17, 2005

O vazio como arte de sobrevivência

www.thousandimages.com

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos como animais envelhecidos…
como frutos de sombra sem sabor
vamos caindo ao chão apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Quem mora nesta solidão adiada
com afagos de nostalgia
tendo por companhia
os pássaros feridos de fome

Que esperas
a morte ronceira
ou o marinheiro
que colheu os frutos
da tua primavera
e se afastou em nau catrineta
e que tu teimosamente
continuas esperando

Que se opere em ti o milagre da carne
e então poderás fenecer
e alcançar os prados verdes
que habitam os teus sonhos
e preenchem a solidão com que coses os dias

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 17 de Julho de 2005

July 15, 2005

Sonhei que sonhava com o teu corpo

www.thousandimages.com

Estamos perto de acordar, quando sonhamos que sonhamos.

Novalis

Sonhei que sonhava com o teu corpo
voavas em direcção ao Zéfiro
e
eu queria-te
mas
no teu voo rasante não escutavas a voz do teu sonho

Quando o sonho se findou
sentiste
o frio da noite se embrenhando
no teu corpo
e
sem nada dizeres
morreste-me

© Rogério Saviniano Telo

Limbo

www.thousandimages.com

Os gatos ronronam
e o sol está a pino
nas ruelas da minha infância

Agora os meninos já não andam descalços
nem a fome famélica espreita
pelas frestas desse então futuro incerto

Hoje o astro-rei brilha para todos
e a promessa de que o futuro
é um porto seguro
para a viagem iniciática
que não sei quando terá fim

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 14 de Julho de 2005

July 14, 2005

Nuvens II

Olas tibias del cielo
Gerardo Diego

Eu pensava nas nuvens que se deixam
iluminar por dentro, pelo sol.
Nas nuvens que não param
na mesma forma, as nuvens
que estão sempre
a ser intérpretes do vento
ondas
que se encavalitam pelo céu.
Eu pensava na mais simples
nuvem
que vai do novelo branco
ao cúmulo onde o raio nasce
e na que espera a vindima
nos dedos da chuva.

© J. T. Parreira

July 13, 2005

Oráculo

Não chegou a hora. Ainda não!!!
não sei o desfecho
desse fio condutor que leva
até esse espaço
onde os poetas gravitam
à procura de capacidade
de alguém os compreender
Ainda não chegou a hora
de desvelar
os segredos que guardam no tempo
que não querem suprimir
e lhes servem de roteiro
onde o sonho galopante
por vezes os leva a um
misantropismo improdutivo
e ingénuo
Ainda não chegou a hora
e a ponte continua junto ao rio
e o comboio já partiu
e eles fecham-se cada vez mais
e sem olhar para trás
fogem e entram na noite
que cai
como um refúgio tentador

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 13 de Julho de 2005

July 12, 2005

Estação De Comboios De Fronteira

Cais de embarque espreitando
para lá do silêncio
da curva das linhas
os sonhos que hão-de chegar
as malas, a vida
e os olhares sonâmbulos.

© J. T. Parreira
(Vilar Formoso, às O4:00 da madrugada)

July 11, 2005

A Companheira



Génesis, 2,18

Meus sapatos seguem
ao lado dos teus, a mesma pedra
que altera o hábito do chão
e faz baixar as asas do olhar
nos aproxima
e torna árduo o declive
a mesma subida
imprevista no sonho
quase nada
nos faz olhar para trás
só as vozes
frágeis
com que os netos chamam
as nossas mãos
guiam-se
os nossos sapatos
lado a lado batem
no mesmo coração.

© J. T. Parreira
9-7-2005

July 9, 2005

O sem-abrigo

Não tem aritmética
para contar as estrelas
nem pode
no tecto romântico da lua
confiar, cai
no fundo
de um cartão passado a ferro
pelo corpo, nessa rua
recolhe-se às ruínas
Dois olhos
entre papéis, cartões
que sobrevivem
O cabelo
sem clarões de ouro
E vem o sono
para o lembrar
que todavia
não está morto.

© J. T. Parreira

July 8, 2005

Columbina

Já não tens necessidade de regares as estrelas
pois o verde da clorofila extinguiu-se
sem que te desses conta
agora
só te resta
assistir ao desenrolar dos dias
que te transformam
em boneca feérica
atirada à plebe
e esta cheia de prazeres pútridos
devolve-te ao sítio
das águas turbulentas
onde esperarás que a vulva-amiba
te devolva às entranhas da terra
onde finalmente terás merecido descanso

© Rogério Saviniano Telo
Funchal - Madeira

July 7, 2005

Rabiscos

Numa folha de papel
desenho franjas de saudade
que se misturam com o sal
das lágrimas que o nevoeiro
parece enviar e me roça a face
Desenho sulcos de sonhos
duma paz que não terei jamais
A noite cai sobre a folha
que se encontra aqui
ante meus dedos enfadados
de nada escrever
Eu olho-a e questiono as
estrelas que afloram
Na incomensurabilidade do céu
minha respiração agasalha o frio
e sai da minha boca um vapor
que se se mistura com a
saliva e me sabe a fel
São flocos de saudades
E a folha branca
voa e cai no parapeito
das minhas quimeras
olho e vejo o sonho
desvanecendo-se
Em argoladas de fumo
do cigarro semi aceso desamparado
ali no canto direito
da boca crispada
num trejeito de pesar
desvairo e nostalgia

© Piedade Araújo Sol
15.01.2005

July 5, 2005

Ni ao

Fazer o alfabeto chinês
e mergulhar a boca no teu sexo
trazer à superfície a flor de lótus
e beber chá
debaixo duma ameixieira em flor
são estes os requisitos
para que as folhas se desprendam
deste sonho adiado
vertigem fugaz
de te ter conhecido em noite de lua-cheia

© Rogério Saviniano Telo
Funchal - Madeira

July 4, 2005

Jamais sentirás tristeza

Jamais sentirás tristeza para
onde fores levarás contigo a alegria
rindo das coisas loucas e
gozarás o sabor dos frutos maduros
e doces dos meses de verão

Partir às vezes significa ficar
reter por breves momentos
algumas palavras e memórias
zombando por instantes
e guardando bem no fundo
recordações inesquecíveis
e que um dia ficam para sempre
sepultadas no nosso pensamento

© Piedade Araújo Sol

July 3, 2005

O Semeador

O semeador larga a semente
da sua mão, a sua mão
e a terra são
a mesma coisa

O semeador larga a semente
que não espera no ar
como um pássaro indiferente
à correnteza

O semeador não pesa a semente
nem o vento onde lança
o fruto ao seu futuro
o semeador larga a sua mão
na semente, investe
o seu corpo e o chão
que são a mesma coisa.

© J. T. Parreira

July 1, 2005

Inchala

www.thousandimages.com

 

Aqui estão as mãos…
alguns pensam que são as mãos de
deus
- eu sei que são as mãos de um homem

Eugénio de Andrade

 

A terra tremeu com os seus vagidos
de animal indefeso
pouco a pouco
foi traçando o seu caminho
e tornou-se deus entre os deuses
mostrando ao mundo
que só o Homem
é senhor do seu destino
e que as estrelas que brilham no céu
em noites de lua clara
são sonhos que
como os frutos
estão esperando por serem colhidos
 

© Rogério Saviniano Telo

Dádiva com nome de fúria

www.thousandimages.com

Respiro a terra nas palavras
no dorso das palavras
respiro
a pedra fresca da cal

 

Eugénio de Andrade

 

Trazias contigo
a promessa de um equinócio
e a alegria incontida
própria de quem se entrega
aos corpos
estes corpos que se translucidam
e migram em mim

A terra cobre-te com
a sua seiva
e eu como produto da terra
cobrir-te-ei com a minha seiva

Depois numa dança de faunos
iremos como cavalos loucos
beber a água do olvido
e a manhá virá
cobrir os nossos corpos

© Rogério Saviniano Telo
1 de Julho de 2005

Pablo Neruda, com a América entrelaçada

Pablo Neruda

Tal como a pintora mexicana Frida Kahlo, que morreu exactamente há 50 anos, apreciada como símbolo da arte do México, que pintou «o Abraço de Amor do Universo», em 1949, misturando elementos do onírico com o telúrico, também o poeta Pablo Neruda entrelaçou na sua vasta poética toda a América. Talvez nem toda, mas indubitavelmente, a América do Povo.

Por esta razão o povo chileno comemorou no mês de Julho o centenário do nascimento do Poeta, e o diário «The New York Times» titulou um dos artigos sobre o evento, com esta forma dúbia «Com mais pompa do que aplauso literário, os chilenos abraçam Neruda no seu centenário».

De facto, o Chile não deixou fugir a oportunidade de proclamar, em entrelinhas, que os 100 anos do Poeta são como o centenário da pátria, que Pablo Neruda é talvez o maior poeta moderno da América Latina, que continua apesar disso a sofrer os problemas com que a ditadura de Pinochet adoeceu o país.

Um pequeno, mas significativo exemplo: no ano passado, a casa onde o Poeta passou a infância esteve à venda e acabou por ser demolida pelo proprietário, após ter sido impossível ao grupo de amigos e admiradores de Neruda pagar o preço do imóvel.

Desde então a imagem do Poeta, diz-se, está a ser reconstruída pelo povo e pelo governo, para fazer esquecer que durante anos o autor de Odas Elementales foi perseguido por suas crenças comunistas, pelo seu estilo de vida boémio. Consegue-se perceber pelo conjunto de iniciativas levadas a cabo, que o povo chileno está a pagar uma grande dívida que tinha para com o Prémio Nobel da Literatura de 1971. Mas também se reconhece, através das palavras da Comissão organizadora, que é somente pela poesia que Neruda pertence à história do Chile. «O povo recita os seus versos na escola, mas nunca foi reconhecido a Pablo Neruda um papel preponderante na história do Chile».

Seja como for, a poesia da Neruda é a história do povo da América do Sul.

E o próprio Poeta não enjeitou esse papel de historiador e fê-lo mesmo reflectir-se no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, quando afirmou: «Compreendi, metido no cenário das lutas da América, que a minha missão humana não era outra senão agregar-me à extensa força do povo organizado, agregar-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque somente dessa torrente podem nascer as mudanças necessárias aos escritores e aos povos

Eu creio, como seu leitor há 40 anos, que este postulado de Neruda está inscrito de uma forma tudo menos redundante no seu épico americano Canto General (1950).

Como na Oda a las Américas (1954), o Poeta também cantaria a pré-história e a história do homem, não deixando de acusar subtilmente o que a degradou: Américas purísimas, / (…) / siglos de razas de silencio, / formadoras de cântaros, / labradoras de piedra.

Para além das peças agitadoras como Ode a Estalinegrado ou aquele poema em que conclama à destruição do presidente Nixon ou ao despertar do lenhador (a consciencialização social e a revolução nos Estados Unidos) existe a sua outra poesia profundamente lírica, sem deixar nunca de ser heróica e social.

E assim quando o telurismo apela à conservação da Terra sem donos e o povo, o povo descalço a anular as distâncias, guia o seu próprio destino asperamente em obras como Residência em la Tierra, quando o Continente americano na sua exuberância se impõe de geração em geração, independente das políticas, sejam elas revolucionárias ou neo-liberais, Pablo Neruda está a cumprir o seu grande desiderato de profeta de uma América virgem entrelaçada na América do seu tempo, até à sua morte em 1973.

por J. T. Parreira
(pela comemoração do centenário do nascimento do poeta, em 2004)

Mensagem

Chegou na sinuosidade da chuva. Num dia
de verão, cheirando a cacimbo
o ar estava asfixiante
assim como um sufoco
passei paulatinamente meus dedos
pelos cabelos
estavam secos e quebradiços
sem resplandecência
essa mensagem, ventilada
por um arauto
inebriado de quimeras
e cingido num manto
de enternecimento
ouvia sons… Música…
e meu olhos
abertos de estupefacção
miram ali a mensagem abandonada
queimando-me as mãos
envolvendo-me de mistério
recado em hieróglifo
não interpretei, não quero
ardem-me os olhos
e minhas mãos transpiradas
amarfanham a mensagem
que atiro arrebatadamente
para dentro das recordações
obscuras
e arquivadas no tempo…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 01 de Julho de 2005

Get free blog up and running in minutes with Blogsome | Theme designs available here