
Tal como a pintora mexicana Frida Kahlo, que morreu exactamente há 50 anos, apreciada como símbolo da arte do México, que pintou «o Abraço de Amor do Universo», em 1949, misturando elementos do onírico com o telúrico, também o poeta Pablo Neruda entrelaçou na sua vasta poética toda a América. Talvez nem toda, mas indubitavelmente, a América do Povo.
Por esta razão o povo chileno comemorou no mês de Julho o centenário do nascimento do Poeta, e o diário «The New York Times» titulou um dos artigos sobre o evento, com esta forma dúbia «Com mais pompa do que aplauso literário, os chilenos abraçam Neruda no seu centenário».
De facto, o Chile não deixou fugir a oportunidade de proclamar, em entrelinhas, que os 100 anos do Poeta são como o centenário da pátria, que Pablo Neruda é talvez o maior poeta moderno da América Latina, que continua apesar disso a sofrer os problemas com que a ditadura de Pinochet adoeceu o país.
Um pequeno, mas significativo exemplo: no ano passado, a casa onde o Poeta passou a infância esteve à venda e acabou por ser demolida pelo proprietário, após ter sido impossível ao grupo de amigos e admiradores de Neruda pagar o preço do imóvel.
Desde então a imagem do Poeta, diz-se, está a ser reconstruída pelo povo e pelo governo, para fazer esquecer que durante anos o autor de Odas Elementales foi perseguido por suas crenças comunistas, pelo seu estilo de vida boémio. Consegue-se perceber pelo conjunto de iniciativas levadas a cabo, que o povo chileno está a pagar uma grande dívida que tinha para com o Prémio Nobel da Literatura de 1971. Mas também se reconhece, através das palavras da Comissão organizadora, que é somente pela poesia que Neruda pertence à história do Chile. «O povo recita os seus versos na escola, mas nunca foi reconhecido a Pablo Neruda um papel preponderante na história do Chile».
Seja como for, a poesia da Neruda é a história do povo da América do Sul.
E o próprio Poeta não enjeitou esse papel de historiador e fê-lo mesmo reflectir-se no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, quando afirmou: «Compreendi, metido no cenário das lutas da América, que a minha missão humana não era outra senão agregar-me à extensa força do povo organizado, agregar-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque somente dessa torrente podem nascer as mudanças necessárias aos escritores e aos povos.»
Eu creio, como seu leitor há 40 anos, que este postulado de Neruda está inscrito de uma forma tudo menos redundante no seu épico americano Canto General (1950).
Como na Oda a las Américas (1954), o Poeta também cantaria a pré-história e a história do homem, não deixando de acusar subtilmente o que a degradou: Américas purísimas, / (…) / siglos de razas de silencio, / formadoras de cântaros, / labradoras de piedra.
Para além das peças agitadoras como Ode a Estalinegrado ou aquele poema em que conclama à destruição do presidente Nixon ou ao despertar do lenhador (a consciencialização social e a revolução nos Estados Unidos) existe a sua outra poesia profundamente lírica, sem deixar nunca de ser heróica e social.
E assim quando o telurismo apela à conservação da Terra sem donos e o povo, o povo descalço a anular as distâncias, guia o seu próprio destino asperamente em obras como Residência em la Tierra, quando o Continente americano na sua exuberância se impõe de geração em geração, independente das políticas, sejam elas revolucionárias ou neo-liberais, Pablo Neruda está a cumprir o seu grande desiderato de profeta de uma América virgem entrelaçada na América do seu tempo, até à sua morte em 1973.
por J. T. Parreira
(pela comemoração do centenário do nascimento do poeta, em 2004)