madrigal blog de poesia

August 31, 2005

Em que boca bebe a luz

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    Da inocência à confiança
    da claridade à fidelidade
    do sonho à consciência
    da beleza à bondade
    da poesia ao amor

    António Ramos Rosa

Erguem-se vultos à tua volta
e o ar torna-se pestilento

Foge
é a barbárie
que volta de novo

Como tudo
a História também se repete
e de novo temos
os duelos entre
as diferentes crenças

Tu sabes que és diferente
deixo-te entregue aos pássaros

Quando o pesadelo terminar
acorda-me

© Rogério Saviniano Telo

Alforria

Alguém me procurou e eu não estava
Minha cela vazia
Não me albergou
Meu cativeiro me enjeitou
E em meu silêncio se entoou
Uma balada de amor

Alguém me procurou e eu estava
Sobrevoando as nuvens
Levando em meu olhos
O brilho dos azuis e das esmeraldas
E em minha mãos flocos de nuvens
Se transformaram em liberdade

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 31/08/2005

Uma Biografia de Bolso

J. T. Parreira

    A veces se le oye cantar cosas de niño

    Gabriel Celaya

Respira numa pequena cidade o mesmo ar
por onde passam os sinos
e os pássaros que chamam os olhos
para cima das árvores da rua principal
na pequena cidade onde vive e que teima
em ser provinciana, toda a gente
se conhece pelo modo como diz o nome
e o rosto de hoje foi o que se viu ontem
Vive numa pequena cidade
cuja gente se preocupa com o buraco
do ozono e o da rua em que reside
Passa algum tempo em casa devagar
as janelas raramente o vêem
sempre que cruza os olhos por um livro
é para paralisar a eternidade
também cruza os braços para se defender
do coração inconfidente
Alguns anos escreveu poesia
com o alheamento das estrelas
não conseguiu entrar ainda na fórmula
azul que é o céu
mas conseguiu deixar aos filhos
como herança dois ou três editores
e espera viver alguns anos ainda
para levantar a cabeça.

© J. T. Parreira

August 30, 2005

Miragem com tons de azul

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Esperei por ti
e tu não chegaste
revi o tempo
mas tu não me esperaste

Miragem ambulante
és tu
musa do meu sofrer
hei-de enlouquecer
sonhando com os
teus afagos
que outrora me servias
cedinho
antes do amanhecer

O teu corpo
foi o meu porto de abrigo
quando as monções
faziam tremer todo o meu ser
foste a amante fiel
e sabias saciar a minha sede
de ti
Hoje pintei
a minha miragem com tons de azul claro
talvez
seja mais fácil te encontrar no meu sonho

© Rogério Saviniano Telo

August 29, 2005

A Poesia

Procurei como quem procura algo para subsistir
Sem rumo certo
Procurei nas veredas vazias
Nos sorrisos discretos
Nas manhas claras
Encontrei muito e pouco
Encontrei tudo e quase nada
Encontrei um beijo esquecido
Uma lágrima ilícita
Uma mão sem nada
Encontrei pessoas enleadas
Renuncias
Amores
Ódios
Aeroportos
Diferentes ou quase iguais
Longos
Pequenos
Não encontrei muito
Não encontrei pouco

Procurei como quem procura algo para perdurar
Não te encontrei
Em forma humana
Nem sabores
Nem cores
Nem odores
Nada nem ninguém me fascinou
Mas sempre que posso
És tu que chamas
E
É em ti que eu me abrigo
Me perco
Me encontro
Me desespero
És o meu amante
A minha droga
O meu narcótico
Tudo se vai tudo se dissipa
E no fim eu volto sempre
Sempre
Os teus braços são o meu antro
O meu porto inevitável
Tu estás sempre presente em tudo o que sou
Em tudo o que faço
Ninguém saberá
Mas tu és
Serás sempre o meu amante clandestino
Predilecto
Discricionário
Eu sei que nem eu
Nem tu
Jamais nos conseguiremos desagregar
Mormente tu estarás sempre comigo
TU
Minha POESIA

© Piedade Araújo Sol
Março de 2004

Afinidades Literárias no Metropolitano

Ezra Pound

The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

    A aparição destas faces na multidão;
    pétalas num húmido, negro ramo.

Ezra Pound

Langston Hughes

Mingled
breath and smell
so close
mingled
black and white
so near
no room for fear

    Misturados
    fôlego e cheiros
    tão íntimos
    misturados
    negro e branco
    tão próximos
    sem espaço para o medo.

Langston Hughes

De quantos inumeráveis poemas existem, que podem ser seleccionados para integrar o conjunto das afinidades literárias, estes dois são paradigmáticos.
As afinidades literárias, revelam-se no lugar - o Metro ou o Subway - que ambos os poetas usaram como referente poético para caracterizar um espaço ligado socialmente às multidões na hora de ponta. Por essa razão, ambos os poemas têm um referencial urbano.
Em primeiro lugar pela sua concentração, em segundo pelos referentes espaço-tempo.
O único ponto em que se afastam, é no método imagístico e na proposta poemática de cada um. No entanto, ambos os poemas tentam explicar o mundo com uma imagem. Cada um com a sua imagem.
O poema de Pound recorrendo ao que ele próprio chama de phanopeia ou a criação de uma imagem na imaginação visual, o de Hughes tirando e revelando, à luz da história social dos Estados Unidos, uma fotografia da realidade.
Não obstante as diferenças, literariamente falando, um e outro pertencem ao estilo do «poema-minuto», na clássica classificação do poeta, crítico e tradutor brasileiro Augusto de Campos.
As próprias dimensões, na forma e no conteúdo, de ambos os poemas têm afinidades.
Octávio Paz classificava o poema longo como sendo «uma sucessão de momentos intensos». Perante estes dois poemas curtos, estamos confrontados com o mesmo princípio, todavia no inverso e no singular. São dois escritos poéticos como um só momento intenso.
Existem em ambos duas ordens de factos, porém com uma relação profunda, patética e essencial. Como se os caminhos das afinidades literárias, finalmente nos conduzissem a um ponto onde se sublinharia, nos dois poemas, uma hipotética «origem» literária.
Nesse sentido, e numa síntese meramente experimental, poderíamos dizer que In a Station of Metro é puro Kafka, porque descreve o que são os rostos na multidão, como a metáfora da transformação que existe em A Metamorfose; e que Subway Rush Hour é Hemingway, por deixar o leitor diante da razão pela qual é injustificável haver segregação racial, utilizando a crónica de acontecimentos, subtil mas poderosa como no conto «Os Assassinos».

© J. T. Parreira
traduções feitas por J. T. Parreira

Em mim habita o intemporal

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Mergulhas nas águas do olvido
e transformas-te em sereia

Jasão sabia do teu destino
por isso
prendeu Ulisses ao mastro
para que não fosse possuído
pelo teu canto

Jocasta
continuava a esperar
pelo seu amado
Tu cantavas o teu canto triste
e Ulisses já se encontrava
a caminho de casa

Tu não sabes
mas estas informações
estão registadas no teu corpo
Um dia terás oportunidade
de eu te relatar
estas metamorfoses
pois
eu fui testemunha
do teu destino

© Rogério Saviniano Telo
Funchal 29 de Agosto de 2005

Pêndulo

Como um relógio marca a duração
de um ensejo
assim foi meu acordar
delimitando o tempo de descanso interrompido
ou simplesmente finalizado
hoje apeteceu-me cantar e
ao abrir as janelas do meu quarto
deparei-me com uma rosa perfumada e fresca
que desabrochara durante a alvorada
contemplei-a e era capaz de jurar
que ao olhá-la ela se abriu ainda mais
para mim
como se me quisesse sorrir…….

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29/08/2005

August 28, 2005

Somewhere in the wild nature

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    É no cérebro que a papoila se revela vermelha, que a
    maçã se torna aromática, que a cotovia canta.

    Oscar Wilde

Os cheiros da minha infância
continuam a acompanhar-me
causando em mim
uma divisão dualística

As imagens flúem
em mim
ora no presente
ora no passado
por vezes
tenho dificuldade
em decifrar
esse tempo que me habita
e me expulsa
como se fosse uma vulva gigante
que me expele
para o espaço sideral
onde o azul tinge tudo

Hoje aprendi
que os sonhos são os movimentos peristálticos
do cérebro
e que
o orvalho são as lágrimas
dos anjos que cuidam de nós

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 28 de Agosto de 2005

José

Estou num sonho deserto
debaixo da noite e do dia
no fundo do vento
A mão suja
tenta a saída
do fundo do poço
Mas o céu é um tecto
o céu espelha
só meu grito
sem que ninguém ouça.

© J. T. Parreira

August 27, 2005

A flor do desejo

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As horas expandem-se
e derramam-se sobre ti
abrindo o túnel que teimosamente
negavas a sua existência

As tuas coxas
abrem-se e
prolongam-se para lá do rio
que corre em mim

De mansinho
entro no teu templo
e aos poucos
vou me habituando
ao teu desejo
que de tão intenso
te provoca espasmos
dando vazão
à tua fúria de viver a carne

© Rogério Saviniano Telo
27 de Agosto de 2005

August 26, 2005

Diáspora

Povo que sofres no limbo
afasta de ti esse cálice de vinho tinto
de púrpura

De tanto sofrer
já não te dás conta
dessa tua condição

Anda vem com a tua garra
e vive o teu viver
verás que no fim da eterna noite
começará um novo dia
cheio de novas vivências
e certamente serás mais feliz

© Rogério Saviniano Telo
26 de Agosto de 2006

Girassóis

Encerrei
com esta lágrima obstinada
e silenciosa
que caiu dos meus olhos
marejados de intempérie
e mágoa
como um orvalho que destilei
sobre a relva dum prado árido
e debaixo de um dia
pardacento mas seco

Encerrei
um ciclo neste acabar
de um acalento
uma boca contraída
um momento
não mais derramarei
uma lágrima sequer
e dos prados
que se tornaram verdes
com o passar dos tempos
brotarão
girassóis
que alegrarão os campos

© Piedade Araújo Sol
26/08/2005

August 24, 2005

O que disse o Poeta a propósito de faróis

farol

    Solo guardas tinieblas
    Pablo Neruda

Faróis? São os gumes
da espada
que corta a noite.

Aos gomos parece
que cai, a noite
precipita-se em sombras no mar.

É densa a noite
mas parece elástica
quando o farol

revolve o escuro
das íntimas
gavetas.

Faróis? São os guardas
que emergem
da altura das trevas,

o seu olhar
guia como os olhos
aos pássaros marítimos.

Como o mar
se assombra
ante esses sóis fictícios!

© J. T. Parreira
21-8-2005

Corpo de ébano

Corpo de ébano
que jazes no fundo da turfa
sai do teu sono letárgico
levanta-te
e oferece os lábios carnudos
à noite
que é sábia companheira
com os segredos do amor
Certamente que te indicará
o norte como destino
e ensinar-te-à
como deves fazer
para que o teu corpo
chegue incólume
até aos desejos
que te possuem
e retesam-te os seios
ardentes de carícias

© Rogério Saviniano Telo
Funchal, 24 de Agosto de 2005

August 23, 2005

Luar de Agosto

Chamo-te de Rosa-luz
porque não sei o teu nome
e porque enches de luz os meus dias
mesmo sabendo
que um dia a escuridão
virá cobrir todo o meu mundo

Quando já nada restar
do que eu fui
vai ao jardim mais perfumado
desta cidade de luz branca
colhe uma rosa
recolhe as pétalas
depois
à beira-rio
espalha os segmentos da rosa
em memória do nosso sonho

© Rogério Saviniano Telo
Lisboa, 23 de Agosto de 2005

August 22, 2005

Nocturno andante com fuga

As gotículas de chuva
pigmemtam-me a pele
e sinto-me mais vivo
depois
terei de visitar os fantasmas
e pagar-lhes um tributo
pois estes devolveram-me
a vontade de viver
aqui neste sítio onde
em cada esquina
se vislumbra um pedinte
e os pombos
debicam este futuro incerto
mas também portador
da fúria de viver

Depois deporei
uma flor
no teu túmulo
meu pássaro amado
que feneceste
antes da eclosão do sonho

© Rogério Saviniano Telo
Lisboa, 22 de Agosto

Invenção

Perdi a senha
não sei como alcançar
e me introduzir nesse cosmos

Eu tinha um mundo só meu
onde bastava um sorriso
talvez
mas… há tanto tempo
que esse olhar ficou algures
tresmalhado

Meu pai dizia: não vás
atrás de sonhos, eles são isso
mesmo
e nunca passarão disso
utopias

Minha mãe dizia: vai segue
sempre os teus sonhos, poderão
nunca passar disso, mas ajudar-te-ão a viver

E eu fiquei entre os sonhos
e um mundo que nunca foi meu
e quis ir
e nunca fui
fiquei…

Hoje procuro a senha
para conseguir deixar os sonhos
e entrar nesse mundo
que nunca foi meu…

© Piedade Araújo Sol
22/08/2005

August 19, 2005

Cai o pano

Como um espectro
penetras na noite taciturna
e gotejando por entre os dedos
saem letras, cálculos
algarismos e fracções

Papeis brancos timbrados
papeis lisos ou amarrotados
que ficam impecavelmente
escriturados em letra fina
preenchidos com números redondos

Entre espasmos de isolamento
a madrugada desponta
e o céu fica pincelado de sangue
te iluminando a vidraça
e o palco do teu desânimo

© Piedade Araújo Sol
19/08/2005

August 18, 2005

As Ceifeiras de Pessoa e Wordsworth

tela de Silva Porto

Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento
filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que - parafraseando o próprio - tem mais razões para escrever que a vida.

Fernando Pessoa

  • Onde Pessoa foi buscar a sua ceifeira?
  • Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
    Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
    A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
    Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
    Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, / Julgando-se feliz talvez », e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo / E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
    De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
    Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
    Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira

  • O Romantismo
  • Essa admiração tem fundamentos no romantismo, porque refere um acto de entrega do homem à natureza, a recolha dos frutos da terra, a atitude telúrica que integra homem e chão - na voz da ceifeira há o campo e a lida - , salvo melhor opinião, possui também fundamentos no pensamento profundo de Pessoa, na filosofia sobretudo. Como consequência desse mistério ontológico, em que o autor de Mensagem junta metafísica e realidade, a sua ceifeira não poderia fugir a este «fado» português: Ela «canta como se tivesse mais razões pra cantar que a vida», e «Ouvi-la alegra e entristece».
    Do ponto de vista estritamente literário, à parte da filosofia, «a poesia da Ceifeira»- como o próprio Pessoa a chamava - é, pela sua estrutura formal e rimática, uma poesia clássica. Em carta dirigida ao seu amigo Cortês-Rodrigues, datada de 19-1-1915, o poeta confessa o seu gosto pessoal por essa poesia, afirmando que conseguiu «dar a nota paúlica em linguagem simples», vai mais longe do que a literatura e a escola poética do paúlismo, afirmando num assomo de auto-análise psicológica a descrença na sua própria personalidade:

      Ah, poder ser tu, sendo eu!
      Ter a tua alegre inconsciência,
      E a consciência disso! (…)

    Com efeito, a Ceifeira, utilizando alguns expedientes românticos (Ó céu, Ó campo, Ó canção), elegância de linguagem (na sua voz há o campo e a lida), não é apenas um poema bucólico, é sobretudo uma análise ontológica do ser, sem dúvida um apontamento introspectivo sobre a alma e a vida.

    William Wordsworth

  • The Solitary Reaper
  • Ao contrário, a composição poética «The solitary reaper» (A ceifeira solitária) assenta numa tradição do bucolismo europeu. Reparte-se entre o subjectivismo da cultura romântica inglesa e a imitação objectiva da natureza. O poema de Wordworth é um retrato e um relato de personagem e de lugar, a Escócia rural do início do séclo XIX. O poeta transcreve a linguagem da natureza, a solidão dos trabalhos do campo, onde o bucolismo se reflecte, como é tradição do romantismo, em estados de alma. Do ponto de vista da cópia da natureza, a poesia lírica do criador do Romantismo inglês, com as suas Lyrical Ballads, glosa alguns pássaros em contraste com o cântico da ceifeira. As aves e essa rapariga das Terras Altas cantam para si mesmas.

      Behold her, single in he field,
      Yon solitary Highland Lass!
      Reaping and singing by herself;
      Stop here, or gently pass!
      Alone she cuts and binds the grain,
      And sings melancholy strain;
      O listen! for the Vale profound
      Is overflowing with the sound.
      (…)
      Will no one tell me what she sings?
      (…)
      The music in my heart I bore,
      Long after it was heard no more.

    Na primeira estrofe de oito versos e na segunda do poema, da solidão da ceifeira transborda para todo o vale profundo uma harmonia que se transforma em bálsamo para os viajantes cansados. O cântico melancólico dela é mais poderoso e benéfico do que os gorjeios dos cucos ou as melodias do rouxinol, para quem esteja nas areias da Arábia ou nos silêncios das distantes Hébridas.
    Mas ninguém dirá por que ela canta ? a ceifeira de Wordsworth, e mesmo usando as chamadas afinidades literárias entre ambos os retratos de dois autores tão distintos cronológica e psicologicamente, não é a mesma cadência, nem a mesma harmonia lamentosa, que nos pode responder. Talvez o mistério de ambos os cantares.
    Que coisas da história, do presente, da alma humana, do infinito do ser, ela canta? E também a ceifeira do Pessoa? Seja o que for, o canto das ceifeiras é tão poderoso e universal, que ao deixar de se ouvir fisicamente, passa a constituir um eco infinito dentro do coração do poeta e de quem o ouviu. É a impressão metafísica que a natureza deixa em nós, como um rasto para compreendermos o humano? Que coisas canta a ceifeira? E arde-nos o coração.
    Análises teológico-metafísicas e outras tantas psicografias são menos suscitadas em «The solitary reaper» que na Ceifeira de Fernando Pessoa. No entanto, este procurou-as na época - em 1905 - em que lia Wordsworth. A dimensão filosófica que Pessoa confere ao seu poema, que o poeta inglês dos Lagos românticos não perseguiu no seu, culmina na chamada estrofe do sentimento pensante, que todos aqueles que conhecem, e amam, a obra pessoana recordam:

      O que em mim sente‘ stá pensando.

    © J. T. Parreira

    Prenúncio

    Ontem fui invadido pela tua voz
    afastada que me chegou dos céus
    flutuei e senti-me desprendida

    Quem és tu, perguntei obstinadamente
    enquanto meus ouvidos
    te escutavam

    Queria prosseguir esta vontade
    de querer
    ficar assim perpetuamente

    Flutuei nessa voz longínqua
    e acho que sem querer
    vi-te no paraíso

    prenúncio de um fim
    sem principio

    © Piedade Araújo Sol
    18/08/2005

    August 17, 2005

    Solilóquio

    Minhas mãos esfaceladas
    pelas águas revoltas
    libertam as impurezas
    que num gesto infrutífero
    tento desprender
    para um esconderijo
    distraído dessas marés
    que chegam e abalam
    que lambem a areia
    como um réprobo
    reza a sua última prece

    © Piedade Araújo Sol
    17/08/2005

    August 16, 2005

    Dádiva

    Toma esta flor. É uma rosa amarela
    eu sei que é a tua flor preferida
    Coloca-a no teu cabelo escuro e liso
    o verde dos teus olhos
    desatará uma luminosidade
    qual labareda refulgente
    que assim perdurará
    Sei que arrecadarás as pétalas
    como se fosse uma preciosidade
    e sei que adormecerás com a sua fragrância
    inundando-te o leito quente e tão macio
    como a tua epiderme…

    © Piedade Araújo Sol
    16/08/2005

    Sonhei que sonhava

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    Que deuses te trouxeram até mim
    feiticeira do mar
    que trazes enleadas nas tuas coxas
    as promessas
    do devir dos corpos
    que habitaste noutras épocas
    e que te fizeram migrar
    nas águas cálidas
    do ventre da terra
    onde os dias correm céleres
    e o pêndulo inexorável do tempo
    nos transforma em bonecos
    e que depois duma transmutação
    seremos elevados nos ares
    porque depois dessa transformação
    ganhamos asas
    e transformamo-nos
    em seres alados

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 16 de Agosto de 2005

    August 15, 2005

    Perito em Anjos

    Os anjos têm no corpo vento
    assim mesmo ficam ao nosso lado
    anjos que nos dispensam
    um olhar discreto
    e nos abordam sem alterar
    a respiração da terra
    Os anjos são testemunhas
    da alegria das estrelas
    mas apesar da sua altura
    e da beleza
    que pousa sobre o ombro
    do mundo um branco sóbrio
    não nos fazem perder
    nem os trigos nem os rios
    e tocam-nos sem ferir
    nosso amor próprio.

    © J. T. Parreira

    Eugénio doesn´t live here anymore

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    Thy body is a portrait
    or rather a needlepiece
    so many trips around lost seas
    sailor of thousand dreams
    finally thy found thy port
    brother of no brother
    I hope from now on
    the sea will be always gentle
    so that thy can sleep
    on the dream
    that I cared
    to prepare for thy resting night
    so long
    sailor

    © Rogério Saviniano Telo

    August 14, 2005

    As Ondas

    Não posso esquecer.
    Um dia me mostraste
    as ondas, rajadas de mar
    que seca na praia.

    © J. T. Parreira

    August 13, 2005

    Brave new world

    Far
    beyond the dream
    horizontally fall
    the flowers of dark stone
    blasing fire
    assassin of the thousand virgins
    that were sleeping on the bank
    of this river
    that flows towards the sea
    to the sea of this oxidated mirror
    that hides
    these emaciated masks
    burning with postponed desire
    distant bodies
    awaiting for the final spin
    that will sink the boat
    and will bring tongues
    to set light into this
    brave new world
    pregnant of fog
    new daring desires
    and tender caresses

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 13 de Agosto de 2005

    August 11, 2005

    Perdição

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    Caminho pelas ruelas
    dos famintos e dos deserdados
    e deparo-me com o teu rosto
    anjo alado
    que vieste até mim
    para deixares a tua marca

    Agora que já não existes
    no plano físico
    sinto o vazio da tua presença
    e anseio
    que a noite caia
    pois sei
    que tu habitas os meus sonhos

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 11 de Agosto de 2005

    Devaneio

    Ontem adormeci sorrindo
    enlaçando um sonho
    que se entranhou
    no meu leito
    inundado de prazer
    Sonhei que pela planície
    cavalgava em loucas corridas
    tendo por companhia
    a presença imutável
    desse sonho ilusório
    e o cavalo era preto
    com sua crina
    ao vento
    me levou
    e meu leito
    por uma noite
    em pradaria
    se metamorfoseou

    © Piedade Araújo Sol
    Funchal, 11/08/2005

    Blue indigo

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    Unveil my eyes
    and kiss me goodbye
    my body is prepared
    to be sliced
    I am the new hero
    of ancient times
    my lips are sealed
    my hands look for a sign
    I speak the language of the blind
    now I am prepared
    to drink the glass of cicuta
    but
    I shall not disturb Socrates
    for he is too busy
    talking in the Agora
    I will continue my destiny
    for
    I am a time voyageur

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 11 de Agosto de 2005

    August 10, 2005

    Memórias

    Agasalho em mim
    esse emudecimento escorrendo
    em filigranas de enternecimento
    nesse tempo
    esfarrapando as manhãs
    já tão desviado
    e para mim tão próximo
    guardo em mim
    esta ambição de voltar
    a esses silêncios
    envolvidos
    em tanta cumplicidade
    que faz com que eu
    sinta as minhas pulsações
    como se de um pêndulo
    se tratasse

    Agasalho em mim….

    © Piedade Araújo Sol
    Funchal, 10/08/2005

    August 9, 2005

    Remigio Adares - Poeta de Salamanca

    Remigio Gonzales Adares com J. T. Parreira

    Salamanca abria a sua Plaza Mayor ao sol ainda jovem dos meados da Primavera de 1993. O dia 1 de Maio era um dia de trabalho para a Cultura, em Salamanca. Uma Feira do Livro, uma Homenagem ao poeta Miguel Hernandez, e, no seu habitual feudo, o poeta salmantino Remígio Adares, 70 anos, quase sempre vividos aqui e ali, mas especialmente ali, na entrada do Café El Corrillo. Foi aí que nos conhecemos, naquela manhã do primeiro de Maio de 1993.
    O Café El Corrillo tem tertúlias, jazz, outras músicas, poesia, mas tinha, como atalaia, esse velho poeta, que me disse, entre outras conversas: «Yo soy el poeta, y por eso paso » Falamos também de pássaros, porque eu editara recentemente, em Lisboa, «Pássaros Aprendendo Para Sempre e Outros Poemas », e Remigio Adares afirmou-me algo que jamais esquecerei: «Os pássaros parecem-me sempre fumos saindo das chaminés dos “pueblos”».
    Este poeta de aspecto campesino, por causa do inseparável boné, constituia-se «tão-somente» como um dos grandes difusores da cultura salmantina no mundo, a sua obra estava e está, com certeza, repartida por muitos confins e latitudes onde é estudada.
    Soube, recentemente, que havia falecido, já em 2001. Agora jamais voltarei à Plaza del Corrillo, perto da Mayor, porque Remigio Adares já não pára a rua e as escadarias breves da entrada do Café com os seus livros expostos.

    SURPREENDES-TE PORQUE TE SURPREENDO

    Remigio Gonzalez «Adares» (Salamanca, 1923\2001)

    Toledo é a resposta
    que vive com o ar
    e a palavra El Greco.

    É o teatro que quer ser o outro
    com as rochas.
    Frio de pés e grande por sua fábrica que chama
    as surpresas.

    O fogo de sua chave
    é a ilusão do sol.
    Retirar as coisas de Toledo
    e deixá-lo sozinho.

    O preço dos passos
    não existe na distância,
    mas o caminho obriga o homem
    que caminhe sempre
    até nenhuma parte.

    Artigo de J. T. Parreira

    Será a vida um sonho

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    Estou aqui
    à beira do tempo
    lá em baixo a espuma bravia
    desfaz-se e refaz-se
    lembrando o ciclo infernal
    de morrer/renascer

    Este quadro é quase
    um convite a dar o salto
    e dar início à dispersão dos átomos

    Depois da borrasca
    este pôr-de-sol
    põe fim a
    este pensamento mórbido
    que de vez em quando
    se agiganta dentro de mim
    e de novo os átomos
    continuam em excursão sideral

    Como num sonho volto à vida

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 8 de Agosto de 2005

    August 8, 2005

    Divagação

    Olha-me nos olhos, sorri
    aplica flores nos meus cabelos
    tu sabes que eu gosto das
    pétalas das rosas
    e de fragrâncias
    as flores deitam seu odor
    e ficaram
    impregnadas de mim
    e de ti
    gesto simples de fim
    de tudo
    ou desencadear de nada

    Virá o dia em que me dirás
    Vem!!
    Preciso de ti!!

    © Piedade Araújo Sol
    Funchal, 08 de Agosto de 2005

    Farewell to Sylvia

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    First I will blind you
    then
    I will cut a piece of your soul
    and throw it into the moon
    in honour of
    the lord
    the sheperd of the suicidals
    those who dared to move
    inside the oxidated mirror
    for they found no reason
    to give birth to the diamonds

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 8 de Agosto de 2005

    Fallen angel

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    O corpo de bailarina rodopia sobre si mesmo
    e cai inerte no chão de pedra
    a chusma aproximou-se e todos se perguntavam
    Quem é?
    Eu fui testemunha silente
    do findar deste corpo que eu conheci tao intimamente
    Num gesto abrupto
    afasto-me
    e dou por mim a murmurar
    que tenhas boa viagem
    meu anjo caído

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal 8 de agosto de 2005

    August 7, 2005

    Ergative body

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    Floating caresses
    silky hands
    touching my ergative body
    that trembles with the mistral wind
    and blows through your veins
    Painter
    oh painter
    which dream
    am I dreaming about

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 7 de Agosto de 2005

    August 5, 2005

    A propósito de poemas traduzidos para o inglês

    Depois de meia dúzia de poemas traduzidos para a língua inglesa, por Linda Marshall, professora de literatura aposentada, por meu filho mais velho, ele próprio leitor de boa poesia, e por mim próprio com muitas debilidades e imperfeições, tenho-me perguntado porquê.
    A resposta imediata estará no aparecimento «físico» desses poemas em websites como Allpoetry, Poets.Org da Academy of American Poets e PoetryConnection.net, e, já agora, nos comentários de leitores e utilizadores desses fóruns de discussão, alguns acolhendo com surpresa a poesia portuguesa, à qual reconhecem geralmente uma aura de mistério, de sortilégio lírico e de inspiração, manifestando interesse em conhecê-la.
    A resposta seguinte está nestas palavras do poeta Mário Dionísio «Concluído o livro, deveria escondê-lo, quer dizer: esconder-me? Teremos o direito de esconder-nos? ». Este poeta do Novo-Cancioneiro, figura marcante do neo-realismo português, escreveu-as a propósito do seu livro de poemas escritos originalmente na língua francesa, Le feu qui dort (Publicações Europa-América, 1967). Narra ainda o poeta e romancista o princípio dessa aventura da escrita em língua estranha, ainda que o autor estivesse ligado à cultura francesa: «Inesperadamente, numa tarde terrivelmente deserta, reparei que dizia sem saber porquê: “O toi ma clef O toi mon ombre et ma clairière“… Respirava, sem poder nem querer preocupar-me com a língua em que o fazia.»
    Temos o dever de não nos escondermos.

    BULLFIGHT

    Man and bull disarm
    one another
    bodies touch
    as arrows
    reach their targets
    touching his suit of lights
    and the bull,s dark hide
    coloring the wind
    and the soil of the bullring
    man and bull
    do not deny the contest
    until blood
    soaks the sand.

    A BRASILEIRA DO CHIADO

    In the cafe A Brasileira do Chiado
    sat the plural Pessoa
    Fernando with laughter shaking his lips.
    They waited for words to pass among them
    and the noise of machines
    and silence,
    the silence that tasted their mouths
    on the deserted wharf.

    Translation of Portuguese by Linda K Marshall

    artigo por J. T. Parreira

    Midnight summer dream

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    Neste simbolismo cromático
    deixas a água crescer em ti
    e eu sonho
    com o carmim das tuas coxas
    onde campeiam as ondas
    que te levarão ao êxtase

    Corpo abandonado aos desejos
    da infância
    onde as bonecas continuam
    gritando o teu nome

    Tempo que já não tens acesso
    pois as ruas estão calcetadas
    com as tuas memórias
    e eu deliro
    com os delírios
    que te acometem
    vezes sem conta
    sempre que viajas até mim

    © Rogério Savininano Telo
    Funchal, 5 de Agosto de 2005

    Anjo da Guarda

    Paira no ar o teu aroma
    o teu trejeito que ficou
    em tudo existe um pouco de ti e
    do teu semblante
    simulacro de querubim
    permanece
    mas tu foste para o céu
    embora ficasses
    arreigado
    nas células
    nos sinais vitais
    que me fazem viver
    no sangue que me corre nas veias
    nos versos que garatujo
    não quero relembrar
    mas tudo me impele
    e repele para ti
    tudo tem algo teu
    que me acorrenta
    me transmuta
    me mistifica

      Esvoaça como num sopro
      uma doce fragrância
      da paz
      que tu deixaste
      expressa nas coisas
      em que toco
      sinto
      e cheiro

    Vem buscar a saudade
    meu anjo da guarda

    © Piedade Araújo Sol
    Funchal,05/08/2005

    August 4, 2005

    Breve muito breve

    Trespassando a obscuridade
    entre franjas de exultação
    eu exclamo o teu nome
    entre o sorrir
    dos meus olhos
    que se atrapalham
    com as estrelas
    que resplandecem no céu

    Breve muito breve

    Beijo-te e sorrio
    porque esse ósculo
    foi levado pela brisa
    e colocado nos teus
    lábios semiabertos
    e quase tão imperceptível
    que tu não pressentiste
    nem chegarás nunca a sentir

      Breve muito breve

    © Piedade Araújo Sol
    Funchal, 4 de Agosto de 2005

    Uma Arte Poética

    É a palavra
    que o poeta tem ao seu alcance
    que desarma os ponteiros do tempo
    nenhum compromisso com a hora
    o minuto, o segundo, tudo
    é um erguer incorpóreo num deserto
    a brancura do papel
    até o silêncio
    e o seu amplo boicote
    E quantas coisas podem
    tentar a entrada
    na moldura do verso
    Mas venha primeiro a luz
    para derreter o bloco
    da noite.

    © J. T. Parreira

    August 2, 2005

    O Poeta II

    Fiz um curso
    de águas para as palavras
    descerem até ao mar
    divino
    onde Circe a Temida
    espera
    marítimos incautos
    madeiras exóticas
    e barcos frescos
    que separam o mar como flechas
    Desviei do curso das sombras
    e das pedras
    das duras palavras
    todos os meus versos
    Do feltro cor de cinza
    dos dias desenredei
    alguns, quase todos
    os vesti de tule
    fi-los mais ricos
    porque estão nus.

    © J. T. Parreira
    2-8-2005

    August 1, 2005

    Cidade Invicta

    Olho o Douro que corre, e de repente
    perco-me no meu emudecimento
    que engenho aqui sentada
    aprisionada neste mutismo
    misterioso e individual
    este dia de Agosto nasceu pardacento
    e eu olho as águas, e sinto-as
    como a manhã
    queria me perder nelas…
    me misturar com os líquenes
    me encher de tudo o que não tenho
    nem posso ter
    Douro que permaneces e corres
    lânguido para a foz
    deixa-me olhar-te
    no teu longo caminhar
    e afastar este frio que entretanto
    se apoderou de mim…

    E trémula e hesitante

      Levanto-me
      e deixo apressada, o meu posto de vigília
      porque o tempo não é meu
      e esgotou-se por hoje…

    © Piedade Araújo Sol
    1 Agosto 2005

    Carpe Diem

    www.thousandimages.com

    O tempo parou num acordo tácito com os corpos cansados
    As águas tornaram-se mansas deixando que o mar
    as acaricie
    e a natureza tornou-se mais viva
    porque deu-se a união entre os homems da idade do ouro
    e as divindades que gerem o tempo

    Deixei o meu corpo entregue
    a essas águas mansas
    virei buscá-lo
    quando as forças me tiverem abandonado
    e o fim se estiver aproximando
    porque é num dia como este
    que quero partir
    rumo a outras paragens
    Quando esse momento chegar
    dar-te-ei um sinal
    e pedir-te-ei que me envies
    os pássaros para que estes
    me escoltem
    na minha derradeira viagem

    © Rogério Saviniano Telo
    Funchal, 1 de Agosto de 2005

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