madrigal blog de poesia

August 5, 2005

A propósito de poemas traduzidos para o inglês

Depois de meia dúzia de poemas traduzidos para a língua inglesa, por Linda Marshall, professora de literatura aposentada, por meu filho mais velho, ele próprio leitor de boa poesia, e por mim próprio com muitas debilidades e imperfeições, tenho-me perguntado porquê.
A resposta imediata estará no aparecimento «físico» desses poemas em websites como Allpoetry, Poets.Org da Academy of American Poets e PoetryConnection.net, e, já agora, nos comentários de leitores e utilizadores desses fóruns de discussão, alguns acolhendo com surpresa a poesia portuguesa, à qual reconhecem geralmente uma aura de mistério, de sortilégio lírico e de inspiração, manifestando interesse em conhecê-la.
A resposta seguinte está nestas palavras do poeta Mário Dionísio «Concluído o livro, deveria escondê-lo, quer dizer: esconder-me? Teremos o direito de esconder-nos? ». Este poeta do Novo-Cancioneiro, figura marcante do neo-realismo português, escreveu-as a propósito do seu livro de poemas escritos originalmente na língua francesa, Le feu qui dort (Publicações Europa-América, 1967). Narra ainda o poeta e romancista o princípio dessa aventura da escrita em língua estranha, ainda que o autor estivesse ligado à cultura francesa: «Inesperadamente, numa tarde terrivelmente deserta, reparei que dizia sem saber porquê: “O toi ma clef O toi mon ombre et ma clairière“… Respirava, sem poder nem querer preocupar-me com a língua em que o fazia.»
Temos o dever de não nos escondermos.

BULLFIGHT

Man and bull disarm
one another
bodies touch
as arrows
reach their targets
touching his suit of lights
and the bull,s dark hide
coloring the wind
and the soil of the bullring
man and bull
do not deny the contest
until blood
soaks the sand.

A BRASILEIRA DO CHIADO

In the cafe A Brasileira do Chiado
sat the plural Pessoa
Fernando with laughter shaking his lips.
They waited for words to pass among them
and the noise of machines
and silence,
the silence that tasted their mouths
on the deserted wharf.

Translation of Portuguese by Linda K Marshall

artigo por J. T. Parreira

Midnight summer dream

www.thousandimages.com

Neste simbolismo cromático
deixas a água crescer em ti
e eu sonho
com o carmim das tuas coxas
onde campeiam as ondas
que te levarão ao êxtase

Corpo abandonado aos desejos
da infância
onde as bonecas continuam
gritando o teu nome

Tempo que já não tens acesso
pois as ruas estão calcetadas
com as tuas memórias
e eu deliro
com os delírios
que te acometem
vezes sem conta
sempre que viajas até mim

© Rogério Savininano Telo
Funchal, 5 de Agosto de 2005

Anjo da Guarda

Paira no ar o teu aroma
o teu trejeito que ficou
em tudo existe um pouco de ti e
do teu semblante
simulacro de querubim
permanece
mas tu foste para o céu
embora ficasses
arreigado
nas células
nos sinais vitais
que me fazem viver
no sangue que me corre nas veias
nos versos que garatujo
não quero relembrar
mas tudo me impele
e repele para ti
tudo tem algo teu
que me acorrenta
me transmuta
me mistifica

    Esvoaça como num sopro
    uma doce fragrância
    da paz
    que tu deixaste
    expressa nas coisas
    em que toco
    sinto
    e cheiro

Vem buscar a saudade
meu anjo da guarda

© Piedade Araújo Sol
Funchal,05/08/2005

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