madrigal blog de poesia

August 29, 2005

A Poesia

Procurei como quem procura algo para subsistir
Sem rumo certo
Procurei nas veredas vazias
Nos sorrisos discretos
Nas manhas claras
Encontrei muito e pouco
Encontrei tudo e quase nada
Encontrei um beijo esquecido
Uma lágrima ilícita
Uma mão sem nada
Encontrei pessoas enleadas
Renuncias
Amores
Ódios
Aeroportos
Diferentes ou quase iguais
Longos
Pequenos
Não encontrei muito
Não encontrei pouco

Procurei como quem procura algo para perdurar
Não te encontrei
Em forma humana
Nem sabores
Nem cores
Nem odores
Nada nem ninguém me fascinou
Mas sempre que posso
És tu que chamas
E
É em ti que eu me abrigo
Me perco
Me encontro
Me desespero
És o meu amante
A minha droga
O meu narcótico
Tudo se vai tudo se dissipa
E no fim eu volto sempre
Sempre
Os teus braços são o meu antro
O meu porto inevitável
Tu estás sempre presente em tudo o que sou
Em tudo o que faço
Ninguém saberá
Mas tu és
Serás sempre o meu amante clandestino
Predilecto
Discricionário
Eu sei que nem eu
Nem tu
Jamais nos conseguiremos desagregar
Mormente tu estarás sempre comigo
TU
Minha POESIA

© Piedade Araújo Sol
Março de 2004

Afinidades Literárias no Metropolitano

Ezra Pound

The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

    A aparição destas faces na multidão;
    pétalas num húmido, negro ramo.

Ezra Pound

Langston Hughes

Mingled
breath and smell
so close
mingled
black and white
so near
no room for fear

    Misturados
    fôlego e cheiros
    tão íntimos
    misturados
    negro e branco
    tão próximos
    sem espaço para o medo.

Langston Hughes

De quantos inumeráveis poemas existem, que podem ser seleccionados para integrar o conjunto das afinidades literárias, estes dois são paradigmáticos.
As afinidades literárias, revelam-se no lugar - o Metro ou o Subway - que ambos os poetas usaram como referente poético para caracterizar um espaço ligado socialmente às multidões na hora de ponta. Por essa razão, ambos os poemas têm um referencial urbano.
Em primeiro lugar pela sua concentração, em segundo pelos referentes espaço-tempo.
O único ponto em que se afastam, é no método imagístico e na proposta poemática de cada um. No entanto, ambos os poemas tentam explicar o mundo com uma imagem. Cada um com a sua imagem.
O poema de Pound recorrendo ao que ele próprio chama de phanopeia ou a criação de uma imagem na imaginação visual, o de Hughes tirando e revelando, à luz da história social dos Estados Unidos, uma fotografia da realidade.
Não obstante as diferenças, literariamente falando, um e outro pertencem ao estilo do «poema-minuto», na clássica classificação do poeta, crítico e tradutor brasileiro Augusto de Campos.
As próprias dimensões, na forma e no conteúdo, de ambos os poemas têm afinidades.
Octávio Paz classificava o poema longo como sendo «uma sucessão de momentos intensos». Perante estes dois poemas curtos, estamos confrontados com o mesmo princípio, todavia no inverso e no singular. São dois escritos poéticos como um só momento intenso.
Existem em ambos duas ordens de factos, porém com uma relação profunda, patética e essencial. Como se os caminhos das afinidades literárias, finalmente nos conduzissem a um ponto onde se sublinharia, nos dois poemas, uma hipotética «origem» literária.
Nesse sentido, e numa síntese meramente experimental, poderíamos dizer que In a Station of Metro é puro Kafka, porque descreve o que são os rostos na multidão, como a metáfora da transformação que existe em A Metamorfose; e que Subway Rush Hour é Hemingway, por deixar o leitor diante da razão pela qual é injustificável haver segregação racial, utilizando a crónica de acontecimentos, subtil mas poderosa como no conto «Os Assassinos».

© J. T. Parreira
traduções feitas por J. T. Parreira

Em mim habita o intemporal

www.thousandimages.com

Mergulhas nas águas do olvido
e transformas-te em sereia

Jasão sabia do teu destino
por isso
prendeu Ulisses ao mastro
para que não fosse possuído
pelo teu canto

Jocasta
continuava a esperar
pelo seu amado
Tu cantavas o teu canto triste
e Ulisses já se encontrava
a caminho de casa

Tu não sabes
mas estas informações
estão registadas no teu corpo
Um dia terás oportunidade
de eu te relatar
estas metamorfoses
pois
eu fui testemunha
do teu destino

© Rogério Saviniano Telo
Funchal 29 de Agosto de 2005

Pêndulo

Como um relógio marca a duração
de um ensejo
assim foi meu acordar
delimitando o tempo de descanso interrompido
ou simplesmente finalizado
hoje apeteceu-me cantar e
ao abrir as janelas do meu quarto
deparei-me com uma rosa perfumada e fresca
que desabrochara durante a alvorada
contemplei-a e era capaz de jurar
que ao olhá-la ela se abriu ainda mais
para mim
como se me quisesse sorrir…….

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29/08/2005

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