madrigal blog de poesia

August 29, 2005

Afinidades Literárias no Metropolitano

Ezra Pound

The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

    A aparição destas faces na multidão;
    pétalas num húmido, negro ramo.

Ezra Pound

Langston Hughes

Mingled
breath and smell
so close
mingled
black and white
so near
no room for fear

    Misturados
    fôlego e cheiros
    tão íntimos
    misturados
    negro e branco
    tão próximos
    sem espaço para o medo.

Langston Hughes

De quantos inumeráveis poemas existem, que podem ser seleccionados para integrar o conjunto das afinidades literárias, estes dois são paradigmáticos.
As afinidades literárias, revelam-se no lugar - o Metro ou o Subway - que ambos os poetas usaram como referente poético para caracterizar um espaço ligado socialmente às multidões na hora de ponta. Por essa razão, ambos os poemas têm um referencial urbano.
Em primeiro lugar pela sua concentração, em segundo pelos referentes espaço-tempo.
O único ponto em que se afastam, é no método imagístico e na proposta poemática de cada um. No entanto, ambos os poemas tentam explicar o mundo com uma imagem. Cada um com a sua imagem.
O poema de Pound recorrendo ao que ele próprio chama de phanopeia ou a criação de uma imagem na imaginação visual, o de Hughes tirando e revelando, à luz da história social dos Estados Unidos, uma fotografia da realidade.
Não obstante as diferenças, literariamente falando, um e outro pertencem ao estilo do «poema-minuto», na clássica classificação do poeta, crítico e tradutor brasileiro Augusto de Campos.
As próprias dimensões, na forma e no conteúdo, de ambos os poemas têm afinidades.
Octávio Paz classificava o poema longo como sendo «uma sucessão de momentos intensos». Perante estes dois poemas curtos, estamos confrontados com o mesmo princípio, todavia no inverso e no singular. São dois escritos poéticos como um só momento intenso.
Existem em ambos duas ordens de factos, porém com uma relação profunda, patética e essencial. Como se os caminhos das afinidades literárias, finalmente nos conduzissem a um ponto onde se sublinharia, nos dois poemas, uma hipotética «origem» literária.
Nesse sentido, e numa síntese meramente experimental, poderíamos dizer que In a Station of Metro é puro Kafka, porque descreve o que são os rostos na multidão, como a metáfora da transformação que existe em A Metamorfose; e que Subway Rush Hour é Hemingway, por deixar o leitor diante da razão pela qual é injustificável haver segregação racial, utilizando a crónica de acontecimentos, subtil mas poderosa como no conto «Os Assassinos».

© J. T. Parreira
traduções feitas por J. T. Parreira

8 comentários »

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  1. Destacaria - …”Misturados
    fôlego e cheiros
    tão íntimos
    misturados
    negro e branco…” - Que resumirá como bem diz “da razão pela qual é injustificável haver segregação racial”.

    Comment por Maria do Céu — August 29, 2005 @ 1:53 pm

  2. Palavras bem profundas… bem ao nível de leituras de metropolitano… :-)

    Comment por Carlos Tavares — August 29, 2005 @ 3:01 pm

  3. Interessante.

    Desculpe, falta um p em pétalas lá acima, mas é irrelevante. :)

    Comment por Fury — August 29, 2005 @ 6:33 pm

  4. Fury: obrigado pela observação, já está corrigido.

    Comment por Alexandre — August 29, 2005 @ 6:43 pm

  5. Caro J.T. Parreira
    obrigado pelo pequeno poema de E. Pound. é um dos meus poetas favoritos, apesar do seu colaboracionisno com o ismo… Permita-me a questão: em vez de block não será black? ( Isto em função da tradução)
    Um abraço
    RST

    Comment por Telo — August 30, 2005 @ 7:47 pm

  6. Rogério, João: também me parece razoável, pelo que já fiz a correcção de block para black.

    Comment por Alexandre — August 30, 2005 @ 9:05 pm

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