madrigal blog de poesia

August 31, 2005

Em que boca bebe a luz

www.thousandimages.com

    Da inocência à confiança
    da claridade à fidelidade
    do sonho à consciência
    da beleza à bondade
    da poesia ao amor

    António Ramos Rosa

Erguem-se vultos à tua volta
e o ar torna-se pestilento

Foge
é a barbárie
que volta de novo

Como tudo
a História também se repete
e de novo temos
os duelos entre
as diferentes crenças

Tu sabes que és diferente
deixo-te entregue aos pássaros

Quando o pesadelo terminar
acorda-me

© Rogério Saviniano Telo

Alforria

Alguém me procurou e eu não estava
Minha cela vazia
Não me albergou
Meu cativeiro me enjeitou
E em meu silêncio se entoou
Uma balada de amor

Alguém me procurou e eu estava
Sobrevoando as nuvens
Levando em meu olhos
O brilho dos azuis e das esmeraldas
E em minha mãos flocos de nuvens
Se transformaram em liberdade

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 31/08/2005

Uma Biografia de Bolso

J. T. Parreira

    A veces se le oye cantar cosas de niño

    Gabriel Celaya

Respira numa pequena cidade o mesmo ar
por onde passam os sinos
e os pássaros que chamam os olhos
para cima das árvores da rua principal
na pequena cidade onde vive e que teima
em ser provinciana, toda a gente
se conhece pelo modo como diz o nome
e o rosto de hoje foi o que se viu ontem
Vive numa pequena cidade
cuja gente se preocupa com o buraco
do ozono e o da rua em que reside
Passa algum tempo em casa devagar
as janelas raramente o vêem
sempre que cruza os olhos por um livro
é para paralisar a eternidade
também cruza os braços para se defender
do coração inconfidente
Alguns anos escreveu poesia
com o alheamento das estrelas
não conseguiu entrar ainda na fórmula
azul que é o céu
mas conseguiu deixar aos filhos
como herança dois ou três editores
e espera viver alguns anos ainda
para levantar a cabeça.

© J. T. Parreira

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