madrigal blog de poesia

September 7, 2005

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Piedade Araújo Sol
Rogério Saviniano Telo
J. T. Parreira

Prece

www.thousandimages.com

Lavra-me o corpo
e faz de mim o teu instrumento

Toca-me de mansinho
como se
eu fosse o ser mais frágil do teu reino

Cataloga-me
como sendo
uma das tuas espécies raras

Beija-me como se
fosse o nosso último adeus

E para
que não me esqueças
planta-me junto ao teu coração

© Rogério Saviniano Telo

September 6, 2005

No começo do mundo

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No começo do mundo
tudo era assim
as sombras habitavam as cores
depois tudo foi clareando
e tu apareceste
triunfante
e ganhaste o meu afecto
bom
poderei afirmar
que foi um acto mútuo
e as nossas mãos
espremeram os frutos maduros
e fez-se dia
trazendo consigo
uma miríade
de cores
eu fiquei estático
tal era o prazer
que sentia pela luminosidade
que te inundava
e tu resplandecias
naquela manhã de inverno

© Rogério Saviniano Telo

September 5, 2005

THE MILLENNIUM

The lion will not be quicker than the ox
in pasture search,
the lamb and the bird
will be a poetical form,
the wolf
will have the kiss in its mouth.

The dove and the eagle
will sail in waters
of white silt.

Then an angel will make
of the Earth a lyric state.

© J. T. Parreira
In www.poets. org from the Academy of American Poets

Encenação

Grito com a boca cerrada
e os punhos contraídos

Mas meu grito não sai
extinguiu-se, e minha voz se perde
no eco das montanhas
confunde-se com as nuvens
que embirram em cobrir o céu
Debato-me e imploro
Não quero
Não sou
Não estou
e engano-me
vou por onde não quero
pois nunca terei audácia
para ir por onde quero

Esta não sou eu
é a outra

E o grito sai trespassando a noite
que se enrodilha comigo
e em tudo o que existe
sem existir
e onde eu a outra

Sem sentir
abraça o vácuo
da encenação

© Piedade Araújo Sol
Funchal,04/09/2005

September 4, 2005

Algas

Amar-te assim com a força da poesia
que sem querer
gravo em tudo o que faço e
sou

Amar-te assim ao clarear de mais um dia
em que descubro meu corpo
desnudado e
tranquilo

Amar-te assim onde as mãos tacteiam
quais algas desavindas
perdidas nas profundezas
das águas

Amar-te

© Piedade Araújo Sol
Funchal 04/09/2005

A Bailarina de Flamenco

I

Ela derrama água nos seus pés.
Quando o seu vestido dança
em chamas
ela põe fora da boca
o coração cansado.
Seus dedos como os pardais
procuram fugir,
como os sapatos de flamenco
na madeira do soalho.

II

Ela dança em chamas.
Por isso põe fora da boca
o coração cansado
e no seu vestido
o vento se derrama.

III

O seu coração bate.
Como os sapatos de flamenco
na madeira do soalho.

IV

Os seus pés em água desenhados.

© J. T. Parreira
3-9-2005

September 3, 2005

Será a vida um sonho II

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    A graciosa gravidade túmida e delicada
    de um corpo que equilibra o mundo e o anula
    é um doce e violento desafio
    à volúvel e frágil fantasia da palavra

    António Ramos Rosa

O meu corpo estremece
de emoção
ao ver-te
pássaro alado
que te vestiste
com as minhas cores preferidas

Fala-me de ti
diz-me de onde vens
a que reino pertences
quem te pintou

Serás um ser alado que saiu
da paleta de um pintor louco
ou serás um sonho
do meu sonho

© Rogério Saviniano Telo

September 2, 2005

Tempo sem nome

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Conto
e reconto os minutos
mas as contas não batem certas
Já sei
são os teus cabelos
que me fascinam
e me enlevam
em castelos distantes
onde deixaste
o teu sorriso
entregue às vestais
do teu templo
musa sem deus para honrares

O desejo
é divino
e faz de nós
deuses de nós mesmos
livres de voarmos
com as nossas próprias asas
e com estas
palavras
me despeço
deusa do tempo sem nome

© Rogério Saviniano Telo

Ensina-me

Ensina-me como aprenderei a contar
As areias da praia
Sem as espalhar
Como juntar as nuvens
Sem as esfarrapar
Como nadar no rio sem me molhar

Ensina-me a amar sem sofrer
A ter sem saber
A compartilhar e receber
A dar e perder

Ensina-me a voar
A ter asas e as merecer
A usar as palavras
Sem as estragar
E sobretudo
Ensina-me a ficar

    Aqui a olhar
    O vaivém das ondas do mar…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 01/09/2005

Wind

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Espalhei os meus sonhos
no ar
e estes aproveitaram
a boleia da brisa
que se fazia sentir
a oeste
e num bailado macabro
mas belo
cirandaram no ar
até ficarem cansados
depois lembraram-se
que o sol estava prestes
a nascer
e como Ícaro
pensaram que se tivessem asas
poderiam voar até ti

Quando acordei estava tenso
mas feliz
porque o meu papagaio
de papel
perdera-se na escuridão da noite

© Rogério Saviniano Telo

September 1, 2005

Despair is made of silk

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Mother
the unspoken words
have been vomited
deep inside me
I know that I lied to you
mother
can’t you see
that I have grown up
mother
between us
understanding is not allowed
mother
goodbye
mother
I am flying south
together with the migrant birds

© Rogério Saviniano Telo

De Perfil

Sacudo a cabeça
e tiro este véu rendilhado
que me cobre a face
ofereço-te assim
meu sorrir
solto de ironias
meu corpo sequioso
de paixão
qual labareda
que consome tudo ao seu redor
quero amar sem reservas
e fazer-te feliz
nem que seja um instante
ou uma eternidade
que se sacia
nesta lava
de desejo…

© Piedade Araújo Sol

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