Encenação
Grito com a boca cerrada
e os punhos contraídos
Mas meu grito não sai
extinguiu-se, e minha voz se perde
no eco das montanhas
confunde-se com as nuvens
que embirram em cobrir o céu
Debato-me e imploro
Não quero
Não sou
Não estou
e engano-me
vou por onde não quero
pois nunca terei audácia
para ir por onde quero
Esta não sou eu
é a outra
E o grito sai trespassando a noite
que se enrodilha comigo
e em tudo o que existe
sem existir
e onde eu a outra
Sem sentir
abraça o vácuo
da encenação
© Piedade Araújo Sol
Funchal,04/09/2005

que bonito poema Piedade-parabéns
http://amcosta.blogs.sapo.pt
Comment por ana maria — September 5, 2005 @ 11:57 am
Nesse palco em que o grito é mudo, recebe-o nos braços o eco das montanhas, e as nuvens são a plateia que vigorosamente aplaude. E tu, és tu e a encenação é o começo sem vácuo…
Para além de bonito é um notável trabalho.
Comment por Maria do Céu — September 5, 2005 @ 12:09 pm
O nosso “eu-mesmo” não nos mente porque SENTE, só o “eu-outro” nos engana porque grita murmúrios surdos de um espelho negro.
Os espelhos só nos falam verdade quando as imagens se desfragmentam em assimetrias.
O encontro está na ousadia de transformarmos o “eu-outro”, no “eu-mesmo” sem perder a cor do sentir…
Comment por almaro — September 5, 2005 @ 5:36 pm
:) obrigada a todos…por terem compreendido este poema….
Comment por Pi — September 5, 2005 @ 7:39 pm
Piedade amiga os teus poemas continuam excelentes e cada vez melhores! Este que acabei de ler tá excepcional. bjo. do amigo miguel.
Comment por miguel abreu — September 13, 2005 @ 11:26 am