madrigal blog de poesia

September 7, 2005

mudamos de servidor agora em blogspot!

Caros leitores:

Acabamos de nos mudar para o blogspot do Blogger. Temos novo endereço em http://madrigal2.blogspot.com.

Esperamos a vossa visita, e os vossos comentários. Queiram por favor actualizar os vossos links.

Obrigado.

Piedade Araújo Sol
Rogério Saviniano Telo
J. T. Parreira

September 5, 2005

THE MILLENNIUM

The lion will not be quicker than the ox
in pasture search,
the lamb and the bird
will be a poetical form,
the wolf
will have the kiss in its mouth.

The dove and the eagle
will sail in waters
of white silt.

Then an angel will make
of the Earth a lyric state.

© J. T. Parreira
In www.poets. org from the Academy of American Poets

September 4, 2005

A Bailarina de Flamenco

I

Ela derrama água nos seus pés.
Quando o seu vestido dança
em chamas
ela põe fora da boca
o coração cansado.
Seus dedos como os pardais
procuram fugir,
como os sapatos de flamenco
na madeira do soalho.

II

Ela dança em chamas.
Por isso põe fora da boca
o coração cansado
e no seu vestido
o vento se derrama.

III

O seu coração bate.
Como os sapatos de flamenco
na madeira do soalho.

IV

Os seus pés em água desenhados.

© J. T. Parreira
3-9-2005

August 31, 2005

Uma Biografia de Bolso

J. T. Parreira

    A veces se le oye cantar cosas de niño

    Gabriel Celaya

Respira numa pequena cidade o mesmo ar
por onde passam os sinos
e os pássaros que chamam os olhos
para cima das árvores da rua principal
na pequena cidade onde vive e que teima
em ser provinciana, toda a gente
se conhece pelo modo como diz o nome
e o rosto de hoje foi o que se viu ontem
Vive numa pequena cidade
cuja gente se preocupa com o buraco
do ozono e o da rua em que reside
Passa algum tempo em casa devagar
as janelas raramente o vêem
sempre que cruza os olhos por um livro
é para paralisar a eternidade
também cruza os braços para se defender
do coração inconfidente
Alguns anos escreveu poesia
com o alheamento das estrelas
não conseguiu entrar ainda na fórmula
azul que é o céu
mas conseguiu deixar aos filhos
como herança dois ou três editores
e espera viver alguns anos ainda
para levantar a cabeça.

© J. T. Parreira

August 29, 2005

Afinidades Literárias no Metropolitano

Ezra Pound

The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

    A aparição destas faces na multidão;
    pétalas num húmido, negro ramo.

Ezra Pound

Langston Hughes

Mingled
breath and smell
so close
mingled
black and white
so near
no room for fear

    Misturados
    fôlego e cheiros
    tão íntimos
    misturados
    negro e branco
    tão próximos
    sem espaço para o medo.

Langston Hughes

De quantos inumeráveis poemas existem, que podem ser seleccionados para integrar o conjunto das afinidades literárias, estes dois são paradigmáticos.
As afinidades literárias, revelam-se no lugar - o Metro ou o Subway - que ambos os poetas usaram como referente poético para caracterizar um espaço ligado socialmente às multidões na hora de ponta. Por essa razão, ambos os poemas têm um referencial urbano.
Em primeiro lugar pela sua concentração, em segundo pelos referentes espaço-tempo.
O único ponto em que se afastam, é no método imagístico e na proposta poemática de cada um. No entanto, ambos os poemas tentam explicar o mundo com uma imagem. Cada um com a sua imagem.
O poema de Pound recorrendo ao que ele próprio chama de phanopeia ou a criação de uma imagem na imaginação visual, o de Hughes tirando e revelando, à luz da história social dos Estados Unidos, uma fotografia da realidade.
Não obstante as diferenças, literariamente falando, um e outro pertencem ao estilo do «poema-minuto», na clássica classificação do poeta, crítico e tradutor brasileiro Augusto de Campos.
As próprias dimensões, na forma e no conteúdo, de ambos os poemas têm afinidades.
Octávio Paz classificava o poema longo como sendo «uma sucessão de momentos intensos». Perante estes dois poemas curtos, estamos confrontados com o mesmo princípio, todavia no inverso e no singular. São dois escritos poéticos como um só momento intenso.
Existem em ambos duas ordens de factos, porém com uma relação profunda, patética e essencial. Como se os caminhos das afinidades literárias, finalmente nos conduzissem a um ponto onde se sublinharia, nos dois poemas, uma hipotética «origem» literária.
Nesse sentido, e numa síntese meramente experimental, poderíamos dizer que In a Station of Metro é puro Kafka, porque descreve o que são os rostos na multidão, como a metáfora da transformação que existe em A Metamorfose; e que Subway Rush Hour é Hemingway, por deixar o leitor diante da razão pela qual é injustificável haver segregação racial, utilizando a crónica de acontecimentos, subtil mas poderosa como no conto «Os Assassinos».

© J. T. Parreira
traduções feitas por J. T. Parreira

August 28, 2005

José

Estou num sonho deserto
debaixo da noite e do dia
no fundo do vento
A mão suja
tenta a saída
do fundo do poço
Mas o céu é um tecto
o céu espelha
só meu grito
sem que ninguém ouça.

© J. T. Parreira

August 24, 2005

O que disse o Poeta a propósito de faróis

farol

    Solo guardas tinieblas
    Pablo Neruda

Faróis? São os gumes
da espada
que corta a noite.

Aos gomos parece
que cai, a noite
precipita-se em sombras no mar.

É densa a noite
mas parece elástica
quando o farol

revolve o escuro
das íntimas
gavetas.

Faróis? São os guardas
que emergem
da altura das trevas,

o seu olhar
guia como os olhos
aos pássaros marítimos.

Como o mar
se assombra
ante esses sóis fictícios!

© J. T. Parreira
21-8-2005

August 18, 2005

As Ceifeiras de Pessoa e Wordsworth

tela de Silva Porto

Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento
filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que - parafraseando o próprio - tem mais razões para escrever que a vida.

Fernando Pessoa

  • Onde Pessoa foi buscar a sua ceifeira?
  • Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
    Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
    A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
    Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
    Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, / Julgando-se feliz talvez », e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo / E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
    De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
    Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
    Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira

  • O Romantismo
  • Essa admiração tem fundamentos no romantismo, porque refere um acto de entrega do homem à natureza, a recolha dos frutos da terra, a atitude telúrica que integra homem e chão - na voz da ceifeira há o campo e a lida - , salvo melhor opinião, possui também fundamentos no pensamento profundo de Pessoa, na filosofia sobretudo. Como consequência desse mistério ontológico, em que o autor de Mensagem junta metafísica e realidade, a sua ceifeira não poderia fugir a este «fado» português: Ela «canta como se tivesse mais razões pra cantar que a vida», e «Ouvi-la alegra e entristece».
    Do ponto de vista estritamente literário, à parte da filosofia, «a poesia da Ceifeira»- como o próprio Pessoa a chamava - é, pela sua estrutura formal e rimática, uma poesia clássica. Em carta dirigida ao seu amigo Cortês-Rodrigues, datada de 19-1-1915, o poeta confessa o seu gosto pessoal por essa poesia, afirmando que conseguiu «dar a nota paúlica em linguagem simples», vai mais longe do que a literatura e a escola poética do paúlismo, afirmando num assomo de auto-análise psicológica a descrença na sua própria personalidade:

      Ah, poder ser tu, sendo eu!
      Ter a tua alegre inconsciência,
      E a consciência disso! (…)

    Com efeito, a Ceifeira, utilizando alguns expedientes românticos (Ó céu, Ó campo, Ó canção), elegância de linguagem (na sua voz há o campo e a lida), não é apenas um poema bucólico, é sobretudo uma análise ontológica do ser, sem dúvida um apontamento introspectivo sobre a alma e a vida.

    William Wordsworth

  • The Solitary Reaper
  • Ao contrário, a composição poética «The solitary reaper» (A ceifeira solitária) assenta numa tradição do bucolismo europeu. Reparte-se entre o subjectivismo da cultura romântica inglesa e a imitação objectiva da natureza. O poema de Wordworth é um retrato e um relato de personagem e de lugar, a Escócia rural do início do séclo XIX. O poeta transcreve a linguagem da natureza, a solidão dos trabalhos do campo, onde o bucolismo se reflecte, como é tradição do romantismo, em estados de alma. Do ponto de vista da cópia da natureza, a poesia lírica do criador do Romantismo inglês, com as suas Lyrical Ballads, glosa alguns pássaros em contraste com o cântico da ceifeira. As aves e essa rapariga das Terras Altas cantam para si mesmas.

      Behold her, single in he field,
      Yon solitary Highland Lass!
      Reaping and singing by herself;
      Stop here, or gently pass!
      Alone she cuts and binds the grain,
      And sings melancholy strain;
      O listen! for the Vale profound
      Is overflowing with the sound.
      (…)
      Will no one tell me what she sings?
      (…)
      The music in my heart I bore,
      Long after it was heard no more.

    Na primeira estrofe de oito versos e na segunda do poema, da solidão da ceifeira transborda para todo o vale profundo uma harmonia que se transforma em bálsamo para os viajantes cansados. O cântico melancólico dela é mais poderoso e benéfico do que os gorjeios dos cucos ou as melodias do rouxinol, para quem esteja nas areias da Arábia ou nos silêncios das distantes Hébridas.
    Mas ninguém dirá por que ela canta ? a ceifeira de Wordsworth, e mesmo usando as chamadas afinidades literárias entre ambos os retratos de dois autores tão distintos cronológica e psicologicamente, não é a mesma cadência, nem a mesma harmonia lamentosa, que nos pode responder. Talvez o mistério de ambos os cantares.
    Que coisas da história, do presente, da alma humana, do infinito do ser, ela canta? E também a ceifeira do Pessoa? Seja o que for, o canto das ceifeiras é tão poderoso e universal, que ao deixar de se ouvir fisicamente, passa a constituir um eco infinito dentro do coração do poeta e de quem o ouviu. É a impressão metafísica que a natureza deixa em nós, como um rasto para compreendermos o humano? Que coisas canta a ceifeira? E arde-nos o coração.
    Análises teológico-metafísicas e outras tantas psicografias são menos suscitadas em «The solitary reaper» que na Ceifeira de Fernando Pessoa. No entanto, este procurou-as na época - em 1905 - em que lia Wordsworth. A dimensão filosófica que Pessoa confere ao seu poema, que o poeta inglês dos Lagos românticos não perseguiu no seu, culmina na chamada estrofe do sentimento pensante, que todos aqueles que conhecem, e amam, a obra pessoana recordam:

      O que em mim sente‘ stá pensando.

    © J. T. Parreira

    August 15, 2005

    Perito em Anjos

    Os anjos têm no corpo vento
    assim mesmo ficam ao nosso lado
    anjos que nos dispensam
    um olhar discreto
    e nos abordam sem alterar
    a respiração da terra
    Os anjos são testemunhas
    da alegria das estrelas
    mas apesar da sua altura
    e da beleza
    que pousa sobre o ombro
    do mundo um branco sóbrio
    não nos fazem perder
    nem os trigos nem os rios
    e tocam-nos sem ferir
    nosso amor próprio.

    © J. T. Parreira

    August 14, 2005

    As Ondas

    Não posso esquecer.
    Um dia me mostraste
    as ondas, rajadas de mar
    que seca na praia.

    © J. T. Parreira

    August 9, 2005

    Remigio Adares - Poeta de Salamanca

    Remigio Gonzales Adares com J. T. Parreira

    Salamanca abria a sua Plaza Mayor ao sol ainda jovem dos meados da Primavera de 1993. O dia 1 de Maio era um dia de trabalho para a Cultura, em Salamanca. Uma Feira do Livro, uma Homenagem ao poeta Miguel Hernandez, e, no seu habitual feudo, o poeta salmantino Remígio Adares, 70 anos, quase sempre vividos aqui e ali, mas especialmente ali, na entrada do Café El Corrillo. Foi aí que nos conhecemos, naquela manhã do primeiro de Maio de 1993.
    O Café El Corrillo tem tertúlias, jazz, outras músicas, poesia, mas tinha, como atalaia, esse velho poeta, que me disse, entre outras conversas: «Yo soy el poeta, y por eso paso » Falamos também de pássaros, porque eu editara recentemente, em Lisboa, «Pássaros Aprendendo Para Sempre e Outros Poemas », e Remigio Adares afirmou-me algo que jamais esquecerei: «Os pássaros parecem-me sempre fumos saindo das chaminés dos “pueblos”».
    Este poeta de aspecto campesino, por causa do inseparável boné, constituia-se «tão-somente» como um dos grandes difusores da cultura salmantina no mundo, a sua obra estava e está, com certeza, repartida por muitos confins e latitudes onde é estudada.
    Soube, recentemente, que havia falecido, já em 2001. Agora jamais voltarei à Plaza del Corrillo, perto da Mayor, porque Remigio Adares já não pára a rua e as escadarias breves da entrada do Café com os seus livros expostos.

    SURPREENDES-TE PORQUE TE SURPREENDO

    Remigio Gonzalez «Adares» (Salamanca, 1923\2001)

    Toledo é a resposta
    que vive com o ar
    e a palavra El Greco.

    É o teatro que quer ser o outro
    com as rochas.
    Frio de pés e grande por sua fábrica que chama
    as surpresas.

    O fogo de sua chave
    é a ilusão do sol.
    Retirar as coisas de Toledo
    e deixá-lo sozinho.

    O preço dos passos
    não existe na distância,
    mas o caminho obriga o homem
    que caminhe sempre
    até nenhuma parte.

    Artigo de J. T. Parreira

    August 5, 2005

    A propósito de poemas traduzidos para o inglês

    Depois de meia dúzia de poemas traduzidos para a língua inglesa, por Linda Marshall, professora de literatura aposentada, por meu filho mais velho, ele próprio leitor de boa poesia, e por mim próprio com muitas debilidades e imperfeições, tenho-me perguntado porquê.
    A resposta imediata estará no aparecimento «físico» desses poemas em websites como Allpoetry, Poets.Org da Academy of American Poets e PoetryConnection.net, e, já agora, nos comentários de leitores e utilizadores desses fóruns de discussão, alguns acolhendo com surpresa a poesia portuguesa, à qual reconhecem geralmente uma aura de mistério, de sortilégio lírico e de inspiração, manifestando interesse em conhecê-la.
    A resposta seguinte está nestas palavras do poeta Mário Dionísio «Concluído o livro, deveria escondê-lo, quer dizer: esconder-me? Teremos o direito de esconder-nos? ». Este poeta do Novo-Cancioneiro, figura marcante do neo-realismo português, escreveu-as a propósito do seu livro de poemas escritos originalmente na língua francesa, Le feu qui dort (Publicações Europa-América, 1967). Narra ainda o poeta e romancista o princípio dessa aventura da escrita em língua estranha, ainda que o autor estivesse ligado à cultura francesa: «Inesperadamente, numa tarde terrivelmente deserta, reparei que dizia sem saber porquê: “O toi ma clef O toi mon ombre et ma clairière“… Respirava, sem poder nem querer preocupar-me com a língua em que o fazia.»
    Temos o dever de não nos escondermos.

    BULLFIGHT

    Man and bull disarm
    one another
    bodies touch
    as arrows
    reach their targets
    touching his suit of lights
    and the bull,s dark hide
    coloring the wind
    and the soil of the bullring
    man and bull
    do not deny the contest
    until blood
    soaks the sand.

    A BRASILEIRA DO CHIADO

    In the cafe A Brasileira do Chiado
    sat the plural Pessoa
    Fernando with laughter shaking his lips.
    They waited for words to pass among them
    and the noise of machines
    and silence,
    the silence that tasted their mouths
    on the deserted wharf.

    Translation of Portuguese by Linda K Marshall

    artigo por J. T. Parreira

    August 4, 2005

    Uma Arte Poética

    É a palavra
    que o poeta tem ao seu alcance
    que desarma os ponteiros do tempo
    nenhum compromisso com a hora
    o minuto, o segundo, tudo
    é um erguer incorpóreo num deserto
    a brancura do papel
    até o silêncio
    e o seu amplo boicote
    E quantas coisas podem
    tentar a entrada
    na moldura do verso
    Mas venha primeiro a luz
    para derreter o bloco
    da noite.

    © J. T. Parreira

    August 2, 2005

    O Poeta II

    Fiz um curso
    de águas para as palavras
    descerem até ao mar
    divino
    onde Circe a Temida
    espera
    marítimos incautos
    madeiras exóticas
    e barcos frescos
    que separam o mar como flechas
    Desviei do curso das sombras
    e das pedras
    das duras palavras
    todos os meus versos
    Do feltro cor de cinza
    dos dias desenredei
    alguns, quase todos
    os vesti de tule
    fi-los mais ricos
    porque estão nus.

    © J. T. Parreira
    2-8-2005

    July 24, 2005

    A Aldeia

    Chagal, «Eu e a aldeia»

    Chegam em revoadas as brumas
    a aldeia encerra os rostos
    das janelas, fecham os cordeiros
    dentro da boca os seus balidos
    O dia revê-se nos espelhos
    quando chega a noite
    quando os olhos se recolhem
    de todos os sentidos
    É o vento que cerca o lume
    nas candeias, mas só as adormece
    a infinita mão.

    © J. T. Parreira

    July 19, 2005

    As Redes Tristes

    Pablo Neruda: -Como são as redes de pesca?
    O Carteiro de P.Neruda: - Tristes, as redes são tristes.

    Chamavam dos ramos do mar
    os pássaros marítimos
    chamavam do fundo
    do volumoso silêncio
    os peixes, como se pudessem
    ser os olhos da noite
    chamavam
    uma sereia de vento e sal
    e os pescadores foram
    lançando a pulso
    -que resiste - as suas setas
    na forma das redes tristes.

    © J. T. Parreira
    7-7-2005

    July 14, 2005

    Nuvens II

    Olas tibias del cielo
    Gerardo Diego

    Eu pensava nas nuvens que se deixam
    iluminar por dentro, pelo sol.
    Nas nuvens que não param
    na mesma forma, as nuvens
    que estão sempre
    a ser intérpretes do vento
    ondas
    que se encavalitam pelo céu.
    Eu pensava na mais simples
    nuvem
    que vai do novelo branco
    ao cúmulo onde o raio nasce
    e na que espera a vindima
    nos dedos da chuva.

    © J. T. Parreira

    July 12, 2005

    Estação De Comboios De Fronteira

    Cais de embarque espreitando
    para lá do silêncio
    da curva das linhas
    os sonhos que hão-de chegar
    as malas, a vida
    e os olhares sonâmbulos.

    © J. T. Parreira
    (Vilar Formoso, às O4:00 da madrugada)

    July 11, 2005

    A Companheira



    Génesis, 2,18

    Meus sapatos seguem
    ao lado dos teus, a mesma pedra
    que altera o hábito do chão
    e faz baixar as asas do olhar
    nos aproxima
    e torna árduo o declive
    a mesma subida
    imprevista no sonho
    quase nada
    nos faz olhar para trás
    só as vozes
    frágeis
    com que os netos chamam
    as nossas mãos
    guiam-se
    os nossos sapatos
    lado a lado batem
    no mesmo coração.

    © J. T. Parreira
    9-7-2005

    July 9, 2005

    O sem-abrigo

    Não tem aritmética
    para contar as estrelas
    nem pode
    no tecto romântico da lua
    confiar, cai
    no fundo
    de um cartão passado a ferro
    pelo corpo, nessa rua
    recolhe-se às ruínas
    Dois olhos
    entre papéis, cartões
    que sobrevivem
    O cabelo
    sem clarões de ouro
    E vem o sono
    para o lembrar
    que todavia
    não está morto.

    © J. T. Parreira

    July 3, 2005

    O Semeador

    O semeador larga a semente
    da sua mão, a sua mão
    e a terra são
    a mesma coisa

    O semeador larga a semente
    que não espera no ar
    como um pássaro indiferente
    à correnteza

    O semeador não pesa a semente
    nem o vento onde lança
    o fruto ao seu futuro
    o semeador larga a sua mão
    na semente, investe
    o seu corpo e o chão
    que são a mesma coisa.

    © J. T. Parreira

    July 1, 2005

    Pablo Neruda, com a América entrelaçada

    Pablo Neruda

    Tal como a pintora mexicana Frida Kahlo, que morreu exactamente há 50 anos, apreciada como símbolo da arte do México, que pintou «o Abraço de Amor do Universo», em 1949, misturando elementos do onírico com o telúrico, também o poeta Pablo Neruda entrelaçou na sua vasta poética toda a América. Talvez nem toda, mas indubitavelmente, a América do Povo.

    Por esta razão o povo chileno comemorou no mês de Julho o centenário do nascimento do Poeta, e o diário «The New York Times» titulou um dos artigos sobre o evento, com esta forma dúbia «Com mais pompa do que aplauso literário, os chilenos abraçam Neruda no seu centenário».

    De facto, o Chile não deixou fugir a oportunidade de proclamar, em entrelinhas, que os 100 anos do Poeta são como o centenário da pátria, que Pablo Neruda é talvez o maior poeta moderno da América Latina, que continua apesar disso a sofrer os problemas com que a ditadura de Pinochet adoeceu o país.

    Um pequeno, mas significativo exemplo: no ano passado, a casa onde o Poeta passou a infância esteve à venda e acabou por ser demolida pelo proprietário, após ter sido impossível ao grupo de amigos e admiradores de Neruda pagar o preço do imóvel.

    Desde então a imagem do Poeta, diz-se, está a ser reconstruída pelo povo e pelo governo, para fazer esquecer que durante anos o autor de Odas Elementales foi perseguido por suas crenças comunistas, pelo seu estilo de vida boémio. Consegue-se perceber pelo conjunto de iniciativas levadas a cabo, que o povo chileno está a pagar uma grande dívida que tinha para com o Prémio Nobel da Literatura de 1971. Mas também se reconhece, através das palavras da Comissão organizadora, que é somente pela poesia que Neruda pertence à história do Chile. «O povo recita os seus versos na escola, mas nunca foi reconhecido a Pablo Neruda um papel preponderante na história do Chile».

    Seja como for, a poesia da Neruda é a história do povo da América do Sul.

    E o próprio Poeta não enjeitou esse papel de historiador e fê-lo mesmo reflectir-se no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, quando afirmou: «Compreendi, metido no cenário das lutas da América, que a minha missão humana não era outra senão agregar-me à extensa força do povo organizado, agregar-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque somente dessa torrente podem nascer as mudanças necessárias aos escritores e aos povos

    Eu creio, como seu leitor há 40 anos, que este postulado de Neruda está inscrito de uma forma tudo menos redundante no seu épico americano Canto General (1950).

    Como na Oda a las Américas (1954), o Poeta também cantaria a pré-história e a história do homem, não deixando de acusar subtilmente o que a degradou: Américas purísimas, / (…) / siglos de razas de silencio, / formadoras de cântaros, / labradoras de piedra.

    Para além das peças agitadoras como Ode a Estalinegrado ou aquele poema em que conclama à destruição do presidente Nixon ou ao despertar do lenhador (a consciencialização social e a revolução nos Estados Unidos) existe a sua outra poesia profundamente lírica, sem deixar nunca de ser heróica e social.

    E assim quando o telurismo apela à conservação da Terra sem donos e o povo, o povo descalço a anular as distâncias, guia o seu próprio destino asperamente em obras como Residência em la Tierra, quando o Continente americano na sua exuberância se impõe de geração em geração, independente das políticas, sejam elas revolucionárias ou neo-liberais, Pablo Neruda está a cumprir o seu grande desiderato de profeta de uma América virgem entrelaçada na América do seu tempo, até à sua morte em 1973.

    por J. T. Parreira
    (pela comemoração do centenário do nascimento do poeta, em 2004)

    June 27, 2005

    O poeta começa o dia

    Cada manhã lança âncora
    ao soalho firme, olhos nos pés
    como num primeiro espelho

    Descer do sono
    sacudir-se do pó
    cósmico, das estrelas
    restos da noite
    e marcas dos sonhos
    que resistem ainda

    Já no mundo os corações
    giram apertados, e entre paredes
    de tijolo devassáveis
    os relógios batem o tempo
    em velocidade

    O dia lá fora já enverga
    fatos e vestidos
    rigorosamente matemáticos
    – não os seus –

    está enfim solto no vento
    ave frágil
    nos olhos de Deus.

    © J. T. Parreira
    27-06-2005

    June 24, 2005

    A Corrida

    o toureiro El Fandi agredido pelo touro

    Para El Fandi

    Homem e touro se desarmam
    um ao outro
    tocam os corpos
    como as setas
    tocam o alvo
    roçam-se o traje de luces e a noite
    Vão colorindo o vento
    até ao chão da praça
    homem e touro
    não se negam
    até que o sangue
    e a areia se trespassem.

    © J. T. Parreira

    June 21, 2005

    Se Vieres, Poesia

    Se vieres, poesia, vem como a terra
    ávida de água da chuva
    necessária como lugar
    de repouso
    Se vieres, como um rosto
    que já secou lágrimas bastantes
    se vieres, poesia, vem
    com os olhos em silêncio
    Poesia, se vieres, vem como a dúvida
    que nos faz falta
    que está por detrás
    do esforço na procura.

    © J. T. Parreira

    June 18, 2005

    A Matéria Solar

    autógrafo do Poeta

    A Eugénio de Andrade

    Uma pedra ainda fria do silêncio
    expõe-se como um corpo
    de mulher, franqueia o dorso
    ao sol que o Oriente lança
    com a sua longa mão
    cada manhã ao começarem
    as linhas das casas, a copa
    das árvores, os telhados
    em cujo gume um gato
    sacode a sua sombra.

    © J. T. Parreira
    16-06-2005

    June 16, 2005

    Jackson Pollock

    Jachson Pollock - Floor

    Assim que o pintor se instala no branco
    da sua tela, como um poeta na página
    árida e branca, não há ainda traços
    nem iniciais acordes, a cor
    deve como o som vir da ausência
    e do silêncio
    Assim que o pintor se instala na tela
    com os seus olhos panorâmicos
    mesmo assim
    existem apenas passos
    no deserto, que é a tela
    branca enquanto está
    despida.

    © J. T. Parreira

    June 14, 2005

    Os Vendedores

    E achou no templo os que vendiam
    lágrimas e ovelhas
    os que guardavam à vista
    a paciência dos bois
    e suprimiam o gesto
    mais vivo das pombas
    Os que trocavam perdão
    ao câmbio do dia.

    © J. T. Parreira

    June 13, 2005

    As mesmas teclas de Eugénio de Andrade

    caricatura de Eugénio de Andrade, autografada pelo mesmo

    Tu já tinhas um nome e eu não sei
    se eras fonte ou brisa ou mar ou flor
    nos meus versos chamar-te-ei Amor

    Este madrigal de apenas três versos de Eugénio de Andrade reflecte o que a sua poética possui, entre múltiplos achados, de lirismo da repetição como um acto criador.

    A meu ver, uma das características marcantes da poesia do autor de «Obscuro Domínio» é esse andar de palavra em palavra, sugando-lhes o tutano ( ou melhor, para o estado lírico da palavra poética, sugando-lhes o mel), repetindo-as desde 1942, para desencantar o cerne da Poesia.

    Esta é, na verdade, a tarefa em que o poeta se reedita, com feliz pertinácia, como ele próprio declarou, em 1971, na obra acima referida: «Recomeço no coração da pedra a juntar palavras».

    Ciente da dureza da pedra, nela trabalha para arrancar formas onde o sol da poesia possa estender-se, trabalho de mineiro ou de escultor, é, curiosamente, noutro coração que o poeta repousa, no coração do lume: «Amo o repouso no coração do lume», embora aqui esteja a designar um fruto, a romã.

    Esta é também uma das características da poesia de Eugénio, sublinhada há duas dezenas de anos por outro grande poeta, Ramos Rosa, a qual consiste na procura da génese ou núcleo do universo «que seja ao mesmo tempo matriz orgânica e linguagem viva.»

    Assim, o descanso do poeta é procurar a palavra, trabalhar a palavra, repetir a palavra. Desta maneira, com o seu segundo livro «As Mãos e os Frutos» - de resto, o primeiro fundamental de uma vastíssima bibliografia - até ao mais recente ( no momento em que escrevo, será «Os Sulcos da Sede», de 2001, o último que li), o poeta insiste em percorrer os seus vocábulos de textura material, para desta se libertar até a palavra ser signo puro, sempre sob o impulso de um vocábulo de acção que é recorrente na linguagem do poeta: recomeço.

    E as palavras, que se repetem, começaram por vir de longe, porquanto na obra de Andrade predomina a visão e a memória. Os vocábulos eugenianos vêm da matéria e do que é imaterial, vêm dos elementos da natureza e do universo, da sua mecânica celeste.

    Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada.

    Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de Ostinato Rigore é também recorrente ao termo «longe» ou à palavra «fundo».

    Em «Obscuro Domínio», obra já muito distante, escrevia o poeta: «Vejo ao longe os meus dóceis animais», noutro livro muitíssimo mais perto, no tempo, escreve: «Veio de longe, e mal chegou partiu para mais longe ainda» («Os Sulcos da Sede»)

    Por vezes sentimos na sua poesia que existe como que um apelo, uma exigência das palavras para figurarem exactamente no poema. Um dos maiores críticos literários portugueses, e especialmente da obra do nosso poeta, Óscar Lopes, certificou essa recorrência ao escrever «que às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para certo sentido». (prefácio à velhinha Antologia Breve, Colecção Duas Horas de Leitura, 13, da extinta Inova, 1972).

    O exercício da leitura da poesia de Eugénio de Andrade é igual hoje, em 2005, ao que foi, com certeza, em 1942, um percurso musical sobre as mesmas teclas.

    artigo da autoria de J. T. Parreira
    em Janeiro de 2005, escrito para o inactivo site alternância, por ocasião do 82º aniversário do Poeta

    June 9, 2005

    Poema de um homem sozinho

    Queria um anjo como esse que enviaste
    com as pernas flexíveis
    como os juncos no Jaboque
    nossos riscos no ar e na água
    seriam a dança sobre a música
    da torrente
    Estou só com o peso dos retalhos
    da minha memória, sozinho
    apenas acompanhado de dois olhos
    e um coração apressado
    É noite, mas o medo não
    resolveria nada, sequer
    acrescentaria um palmo
    à minha sombra
    Só na luta plena o nome
    muda, o nome
    novo se alcança
    Enfim a manhã virá
    rompendo
    o novelo do sol
    Estou sozinho, em pé
    mas fincado na terra
    como a lança.

    © J. T. Parreira
    7-5-2005

    June 8, 2005

    Auto-retrato do Poeta

    O Poeta e a mulher nos tempos da Guerra Colonial

    Põe o seu peso na folha
    antes que o vento
    entre no papel

    O poema vem
    espalhando cores

    Ele se dispõe a salvar
    tudo, o mundo, a rosa
    o rio que não suspeita
    da força das pedras
    os pássaros que ficam
    no poema, e na rede
    das suas asas

    O poema está à minha frente
    como a chuva entre mim e o dia
    o poema dispõe-se a ser
    um ar de estrelas
    um vento no qual assomamos
    o rosto na janela
    um ritmo para seguir
    com os olhos

    O poema toma todos
    os riscos da vida
    até se não fosse tão triste
    a morte, morreria

    O poema por fim fecha
    o poeta em casa
    e agora está preso ao poema
    como se desse a última palavra.

    © J. T. Parreira

    June 7, 2005

    O Milagre

    Quando os homens cegos começarem
    a ver donde vem o silêncio, e as coisas
    deixem de pairar no escuro
    quando essa impenetrável floresta
    da noite deixar de ser uma pedra
    de tropeço
    quando os homens cegos puderem abrir
    o espanto no olhar, sacudir o cinzento
    do sono ante as novas manhãs
    quando os homens cegos libertarem
    pelos olhos a diurna claridade
    será o milagre.

    © J. T. Parreira

    June 3, 2005

    A Caça

    Vive nos olhos de mármore
    do gato o salto
    interminável
    sobre o pássaro
    Indefeso
    um bando de pombos passa
    escorrega pelo ar
    e o perigo desconhece
    inominado no felino tenso
    Então o gato salta
    num silêncio nobre
    na fileira dos seus dentes
    e nas garras
    o voo do pássaro prende
    Só o pássaro e o gato
    ignoram que é a morte.

    © J. T. Parreira
    30-5-2005

    June 1, 2005

    Olhai as Aves do Céu

    Bird Dance, de Cefyn Gauden

    Olhai as aves do céu
    voam
    de qualquer lado
    habitam qualquer lugar
    no azul ou no verde
    menos nos nossos olhos
    Olhai depressa as aves
    no céu
    Cada pássaro se dissipa
    na sua partida
    e a velocidade dos olhos
    perde-se no voo violado
    Olhai nas aves o céu
    espaço permeável
    ao vento à alta seta
    do sonho
    Olhai as aves no seu tempo
    de comer, de colher o trigo
    como um hábito
    de estar entre os homens
    de colorir as crianças
    de adornar o seu corpo
    na íntima água.

    © J. T. Parreira

    May 31, 2005

    A Poesia da Paleta de Paul Klee

    Sendo certo que foi um construtivista do abstraccionismo, um cubista pelo rigor das formas geométricas, um colorista de manchas difusas, não é menos certo que Paul Klee foi também um pintor de poesia visual.

    Entre aguarelas e óleos que marcaram com a variedade das formas e das cores da subtileza, dos sinais e dos símbolos quase hieroglíficos, toda a arte ocidental das primeiras décadas do século XX, ao pintor suíço ainda restou tempo para honrar o latino Horácio e a arte poética deste, ao fazer poesia como pintura falada.

    Paul Klee

    leia mais >>

    artigo assinado por J. T. Parreira.

    May 30, 2005

    O Galo

    Un gallo
    cantò; altri risposero qua e lá.

    Umberto Saba

    Un galo
    cantou e outro respondeu
    que está lá
    no seu posto móvel
    no vento
    qualquer coisa negra
    começa a desfazer-se
    em claridade, a noite
    repassa as outras latitudes
    qualquer coisa começa
    a restaurar-se nas janelas
    as casas respondem
    outros animais
    retomam nos quintais
    a domesticada vida
    numa repetição sem delícia
    nem tédio, um galo
    avançou com a rotina
    em todo o seu canto
    que procede
    do silêncio.

    © J. T. Parreira

    versão em inglês por João Tomás Parreira (filho) aqui

    May 28, 2005

    Notícia

    Já a noite caiu do céu e a Ásia
    vista do universo
    é um continente imerso no escuro
    a África aguarda que o planeta role
    para se vestir também de negro
    e depois a Europa
    mais tarde a América sem o sol
    para sair da noite
    à volta do mundo
    consome
    as próprias luzes
    e alguém
    morre de fome
    de 3,6 em 3,6
    segundos.

    © J. T. Parreira

    Os Salmistas

    Adormecidos entre liras

    cujas cordas resistem
    à dureza do dedo
    e do ouvido

    os salmistas

    acordam manhã cedo
    por causa da insónia
    seus dedos levantam-se

    plantam

    as hastes do som
    entre o silêncio.

    © J. T. Parreira

    May 23, 2005

    Avó Leonor

    Avó Leonor

    Uma avó negra que tive em silêncio
    avó de branco
    riso que nunca poisou em mim
    o algodão do seu olhar
    avó de negros
    olhos fazendo luz
    entre a noite transparente
    sob o luar dos fogos
    Avó negra
    que invocavas deuses
    deuses fechados como os sons
    que à floresta se reservam
    toda a minha alma
    é cruzada por ti
    como a noite
    trespassada pela chama.

    © J. T. Parreira

    Mário de Andrade e Álvaro de Campos: uma identidade

    Álvaro de Campos, «dentro» de Fernando Pessoa Mário de Andrade

    No meio do caudal que jorra da torrente sensacionista de Álvaro de Campos, no início de um pequeno verso (o 41º) do poema «A Passagem das Horas», surge a revelação e o estímulo para um entendimento de Fernando Pessoa, o seu retrato psicológico em que se consubstancia a sua heteronímia.

    «Multipliquei-me para me sentir».

    Em determinada ocasião, o Poeta afirmou, a propósito do seu refúgio nos filósofos gregos e alemães, no ambiente austeramente cultural britânico e do seu consequente bilinguismo, que se «libertou para dentro». Exceptuadas outras causas psicológicas, do foro da auto-psicografia pessoana, o seu esoterismo, o seu gosto pelas ciências ocultas, esta libertação para o seu interior, também esteve na base da criação dos heterónimos.

    Mas a identificação com o Poeta brasileiro Mário de Andrade consiste na leitura de alguns versos do autor de «Pauliceia Desvairada», que decalcam um vocabulário e um estilo sensacionista. Por exemplo, Mário de Andrade em «Louvação da Tarde», cujo processo poético liga um sentimento do Eu integrado na paisagem, escreve:

    «O doce respirar do forde se une / Aos gritos ponteagudos das graúnas».

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    artigo assinado por J. T. Parreira.

    May 20, 2005

    Nocturno de Mim

    Quando a noite chega e meus olhos
    são uma sala vazia, quando a noite chega
    e olho meus livros, os meus utensílios
    com palavras na penumbra, é a hora da luz
    iluminar com a sua água sobre a mesa
    quando a noite chega
    quando chega num cigarro abortado
    antes da última cinza, quando a noite chega
    e as janelas transparentes no escuro
    quando chega a noite
    estou cercado de perguntas, a algumas
    respondo, outras cingem-me os ombros
    quando a noite chega sou como nuvens
    que procuram casa sem parar seu rumo.

    © J. T. Parreira
    20-05-2005

    May 18, 2005

    Cinco Poetas entre dois rios (sobre a poesia curda e afegã)

    «Tenho pousado o ouvido sobre o coração/ da terra. /Falava de amor, do seu amor/pela chuva,/ a terra.»
    Sherko Bekas, poeta da resistência curda.

    Ouvintes das línguas árabes, tanto a língua dos média, como a do Corão, não consideramos que as mesmas sejam muito felizes para a fala poética. O idioma árabe, de um modo geral, é áspero e gutural, mas a significação e a intimidade das palavras podem ser preciosas e então, como diria o poeta William Carlos Williams, ouve-se o sentido, quer seja em tradução para o português, inglês ou o italiano.

    Os versos com os quais abrimos este artigo, sugerem-nos essa dimensão em que o sentido se transforma em sentimento da pátria, embora nos apareçam numa terceira língua de chegada (foram traduzidos do italiano).

    A forma expressiva, até a irregularidade da sua métrica, seja como for propiciam o cântico, e, sobretudo, não se distanciam dos recursos da poética moderna. O seu autor, Sherko Bekas, nascido em 1940, ministro da Cultura da Região autónoma do Curdistão iraquiano em 1992, reúne na sua actividade poética o lirismo e a luta da resistência curda, o som telúrico de alguma da sua poesia não evidencia nenhum desusado bucolismo, é mais poesia para preparar a terra para um combate pela identidade.

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    artigo assinado por J. T. Parreira.

    Breve Arte Poética

    É a palavra
    o que o poeta tem ao seu alcance
    que desarma os ponteiros do tempo

    Nenhum compromisso com a hora
    o minuto, o segundo, tudo
    será a transparência
    incorpórea no deserto
    da brancura do papel
    ao silêncio
    e o seu amplo boicote

    Quantas coisas podem
    tentar a entrada
    na moldura do verso?

    Mas venha primeiro a luz
    para derreter o bloco
    da noite.

    © J. T. Parreira

    May 17, 2005

    O Muro

    Tão alto como o voo dos pássaros
    ou tão alto que nem os pássaros
    consigam passar
    o muro
    tão perdido
    entre as nuvens, acima
    tão acima destes olhos
    que não acompanham
    as aves, setas que sobem
    como a dúvida
    de não romper o cimento
    Tão alto onde parece haver luz
    o muro vai entrando
    como a proa cujo barco
    vai em silêncio, o muro
    tão alto que nem os pássaros
    o distinguem
    vai haver uma altura
    em que as trevas o tingem.

    © J. T. Parreira

    May 12, 2005

    A Nova Máquina Lírica

    Trinta e duas teclas como um dedo
    abrem-se para a letra
    branca, ainda inconquistada
    que música está, que mundo
    para lá do batimento em harmonia!
    Que saltos sobre as teclas
    atingirão outras galáxias?
    As palavras, até as hesitantes
    acabam por quebrar o silêncio
    do documento em branco
    Poemas, sonhos, invasões do papel
    repousos em pastos verdejantes
    águas que reflectem azul
    a tranquilidade do céu
    Esta máquina lírica é o dia
    mais livre da minha vida.

    © J. T. Parreira
    5/2005

    Canção Para A Morte De Um Pássaro

    Cresceu junto de outros pássaros
    equilibrado no azul
    na linha imaginária
    do universo
    pequeno pardal a suspender
    a respiração de um verso
    sobrevoando espelhos de água

    Cresceu metendo o sono
    entre a plumagem
    a pequena cabeça repousando
    dos voos rasantes ao fundo do universo

    Quando desceu entre os campos
    e a copa imensa do céu
    no lugar do seu coração
    alguma coisa bateu, e bateu
    no asfalto
    o minúsculo coração.

    © J. T. Parreira

    May 5, 2005

    Num Campo em Weimar

    60º ano da libertação de Buchenwald

     
    Noutro tempo só os mortos sorriam
    num caminho onde o perfume
    do bosque de faias prolongava
    um poema de Goethe
    que resistia, resistia
    noutro tempo só os mortos
    espreitavam a sua própria morte
    só os mortos
    eram um costume
    num bosque de sombras
    pesadas como pedras
    e de vozes
    de um carrasco triste
    onde o silêncio lamentava
    nas faias uma canção de Liszt.
     
     
    © J. T. Parreira

    Solidário

    Sinto como de alguém a solidão
    do sol
    Não aquela que percorre
    no escuro o solstício do verão
    quando as cores vestem todos
    os poros das mulheres
    Mas a solidão do lugar
    mesmo na manhã
    quando ainda assim o olhar
    não quer
    passar pelo fogo
    Sinto como poucos a solidão
    do sol, vê-lo
    sem poder ser olhado
    por toda a menina dos olhos
    Sem olhos nus e límpidos
    do homem
    tudo lhe faltará.
     
     
    © J. T. Parreira

    Os Andarilhos

    A planta dos pés na terra, um passo
    atrás do outro, os olhos
    humilhados onde passam
    conhecem só
    o calor húmido do chão
    e as formas de uma nuvem
    que o ímpeto das águas
    rompe de repente
     
    Hoje como ontem
    o sol sobre os ombros
    um dia após o outro
    ligados ao fundo
    por estrelas
    nos celestes caminhos
     
    A noite vem deitar os corpos
    nos sonhos aguardados
    no coração dos andarilhos
    com paciência, a treva
    que vem voando cega.
     
     
    © J. T. Parreira

    A Despedida

    Entre as mãos e a parede
    a cabeça dela segura
    e agarra o mundo
    depois, um a um
    desata os dedos
    dos cabelos
    a corda
    presa ao cais.
     
     
    © J. T. Parreira

    Dizer Sem Dizer: os sons na poesia de Huidobro

    Um prefácio e sete poemas, designados por cantos, constituem o livro torrencial de Vicente Huidobro (1893-1948), poeta chileno, cuja linguagem se desloca do centro da poesia modernista, no conceito da América hispânica da primeira década do século XX, para a busca do vocábulo puramente fonético, aparentemente sem poesia, mas exibindo uma estrutura onomatopeica como significante apenas do próprio som.
    Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer «al horizonte en la montaña» assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).

    mais >>

    O Apanhador de Pássaros

    Persegue o essencial
    do pássaro, o seu voo
    entre as linhas do ar
    como um verso que foge
    quanto mais aperta o laço
    que o pássaro
    faz no seu olhar
    O pássaro que declina com a tarde
    o pássaro barato
    e o de muitas cores
    e o pássaro apenas impresso
    na folha da noite que cai
    no fundo do Universo.

    © J. T. Parreira

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