madrigal blog de poesia

September 7, 2005

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Piedade Araújo Sol
Rogério Saviniano Telo
J. T. Parreira

September 5, 2005

Encenação

Grito com a boca cerrada
e os punhos contraídos

Mas meu grito não sai
extinguiu-se, e minha voz se perde
no eco das montanhas
confunde-se com as nuvens
que embirram em cobrir o céu
Debato-me e imploro
Não quero
Não sou
Não estou
e engano-me
vou por onde não quero
pois nunca terei audácia
para ir por onde quero

Esta não sou eu
é a outra

E o grito sai trespassando a noite
que se enrodilha comigo
e em tudo o que existe
sem existir
e onde eu a outra

Sem sentir
abraça o vácuo
da encenação

© Piedade Araújo Sol
Funchal,04/09/2005

September 4, 2005

Algas

Amar-te assim com a força da poesia
que sem querer
gravo em tudo o que faço e
sou

Amar-te assim ao clarear de mais um dia
em que descubro meu corpo
desnudado e
tranquilo

Amar-te assim onde as mãos tacteiam
quais algas desavindas
perdidas nas profundezas
das águas

Amar-te

© Piedade Araújo Sol
Funchal 04/09/2005

September 2, 2005

Ensina-me

Ensina-me como aprenderei a contar
As areias da praia
Sem as espalhar
Como juntar as nuvens
Sem as esfarrapar
Como nadar no rio sem me molhar

Ensina-me a amar sem sofrer
A ter sem saber
A compartilhar e receber
A dar e perder

Ensina-me a voar
A ter asas e as merecer
A usar as palavras
Sem as estragar
E sobretudo
Ensina-me a ficar

    Aqui a olhar
    O vaivém das ondas do mar…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 01/09/2005

September 1, 2005

De Perfil

Sacudo a cabeça
e tiro este véu rendilhado
que me cobre a face
ofereço-te assim
meu sorrir
solto de ironias
meu corpo sequioso
de paixão
qual labareda
que consome tudo ao seu redor
quero amar sem reservas
e fazer-te feliz
nem que seja um instante
ou uma eternidade
que se sacia
nesta lava
de desejo…

© Piedade Araújo Sol

August 31, 2005

Alforria

Alguém me procurou e eu não estava
Minha cela vazia
Não me albergou
Meu cativeiro me enjeitou
E em meu silêncio se entoou
Uma balada de amor

Alguém me procurou e eu estava
Sobrevoando as nuvens
Levando em meu olhos
O brilho dos azuis e das esmeraldas
E em minha mãos flocos de nuvens
Se transformaram em liberdade

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 31/08/2005

August 29, 2005

A Poesia

Procurei como quem procura algo para subsistir
Sem rumo certo
Procurei nas veredas vazias
Nos sorrisos discretos
Nas manhas claras
Encontrei muito e pouco
Encontrei tudo e quase nada
Encontrei um beijo esquecido
Uma lágrima ilícita
Uma mão sem nada
Encontrei pessoas enleadas
Renuncias
Amores
Ódios
Aeroportos
Diferentes ou quase iguais
Longos
Pequenos
Não encontrei muito
Não encontrei pouco

Procurei como quem procura algo para perdurar
Não te encontrei
Em forma humana
Nem sabores
Nem cores
Nem odores
Nada nem ninguém me fascinou
Mas sempre que posso
És tu que chamas
E
É em ti que eu me abrigo
Me perco
Me encontro
Me desespero
És o meu amante
A minha droga
O meu narcótico
Tudo se vai tudo se dissipa
E no fim eu volto sempre
Sempre
Os teus braços são o meu antro
O meu porto inevitável
Tu estás sempre presente em tudo o que sou
Em tudo o que faço
Ninguém saberá
Mas tu és
Serás sempre o meu amante clandestino
Predilecto
Discricionário
Eu sei que nem eu
Nem tu
Jamais nos conseguiremos desagregar
Mormente tu estarás sempre comigo
TU
Minha POESIA

© Piedade Araújo Sol
Março de 2004

Pêndulo

Como um relógio marca a duração
de um ensejo
assim foi meu acordar
delimitando o tempo de descanso interrompido
ou simplesmente finalizado
hoje apeteceu-me cantar e
ao abrir as janelas do meu quarto
deparei-me com uma rosa perfumada e fresca
que desabrochara durante a alvorada
contemplei-a e era capaz de jurar
que ao olhá-la ela se abriu ainda mais
para mim
como se me quisesse sorrir…….

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29/08/2005

August 26, 2005

Girassóis

Encerrei
com esta lágrima obstinada
e silenciosa
que caiu dos meus olhos
marejados de intempérie
e mágoa
como um orvalho que destilei
sobre a relva dum prado árido
e debaixo de um dia
pardacento mas seco

Encerrei
um ciclo neste acabar
de um acalento
uma boca contraída
um momento
não mais derramarei
uma lágrima sequer
e dos prados
que se tornaram verdes
com o passar dos tempos
brotarão
girassóis
que alegrarão os campos

© Piedade Araújo Sol
26/08/2005

August 22, 2005

Invenção

Perdi a senha
não sei como alcançar
e me introduzir nesse cosmos

Eu tinha um mundo só meu
onde bastava um sorriso
talvez
mas… há tanto tempo
que esse olhar ficou algures
tresmalhado

Meu pai dizia: não vás
atrás de sonhos, eles são isso
mesmo
e nunca passarão disso
utopias

Minha mãe dizia: vai segue
sempre os teus sonhos, poderão
nunca passar disso, mas ajudar-te-ão a viver

E eu fiquei entre os sonhos
e um mundo que nunca foi meu
e quis ir
e nunca fui
fiquei…

Hoje procuro a senha
para conseguir deixar os sonhos
e entrar nesse mundo
que nunca foi meu…

© Piedade Araújo Sol
22/08/2005

August 19, 2005

Cai o pano

Como um espectro
penetras na noite taciturna
e gotejando por entre os dedos
saem letras, cálculos
algarismos e fracções

Papeis brancos timbrados
papeis lisos ou amarrotados
que ficam impecavelmente
escriturados em letra fina
preenchidos com números redondos

Entre espasmos de isolamento
a madrugada desponta
e o céu fica pincelado de sangue
te iluminando a vidraça
e o palco do teu desânimo

© Piedade Araújo Sol
19/08/2005

August 18, 2005

Prenúncio

Ontem fui invadido pela tua voz
afastada que me chegou dos céus
flutuei e senti-me desprendida

Quem és tu, perguntei obstinadamente
enquanto meus ouvidos
te escutavam

Queria prosseguir esta vontade
de querer
ficar assim perpetuamente

Flutuei nessa voz longínqua
e acho que sem querer
vi-te no paraíso

prenúncio de um fim
sem principio

© Piedade Araújo Sol
18/08/2005

August 17, 2005

Solilóquio

Minhas mãos esfaceladas
pelas águas revoltas
libertam as impurezas
que num gesto infrutífero
tento desprender
para um esconderijo
distraído dessas marés
que chegam e abalam
que lambem a areia
como um réprobo
reza a sua última prece

© Piedade Araújo Sol
17/08/2005

August 16, 2005

Dádiva

Toma esta flor. É uma rosa amarela
eu sei que é a tua flor preferida
Coloca-a no teu cabelo escuro e liso
o verde dos teus olhos
desatará uma luminosidade
qual labareda refulgente
que assim perdurará
Sei que arrecadarás as pétalas
como se fosse uma preciosidade
e sei que adormecerás com a sua fragrância
inundando-te o leito quente e tão macio
como a tua epiderme…

© Piedade Araújo Sol
16/08/2005

August 11, 2005

Devaneio

Ontem adormeci sorrindo
enlaçando um sonho
que se entranhou
no meu leito
inundado de prazer
Sonhei que pela planície
cavalgava em loucas corridas
tendo por companhia
a presença imutável
desse sonho ilusório
e o cavalo era preto
com sua crina
ao vento
me levou
e meu leito
por uma noite
em pradaria
se metamorfoseou

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 11/08/2005

August 10, 2005

Memórias

Agasalho em mim
esse emudecimento escorrendo
em filigranas de enternecimento
nesse tempo
esfarrapando as manhãs
já tão desviado
e para mim tão próximo
guardo em mim
esta ambição de voltar
a esses silêncios
envolvidos
em tanta cumplicidade
que faz com que eu
sinta as minhas pulsações
como se de um pêndulo
se tratasse

Agasalho em mim….

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 10/08/2005

August 8, 2005

Divagação

Olha-me nos olhos, sorri
aplica flores nos meus cabelos
tu sabes que eu gosto das
pétalas das rosas
e de fragrâncias
as flores deitam seu odor
e ficaram
impregnadas de mim
e de ti
gesto simples de fim
de tudo
ou desencadear de nada

Virá o dia em que me dirás
Vem!!
Preciso de ti!!

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 08 de Agosto de 2005

August 5, 2005

Anjo da Guarda

Paira no ar o teu aroma
o teu trejeito que ficou
em tudo existe um pouco de ti e
do teu semblante
simulacro de querubim
permanece
mas tu foste para o céu
embora ficasses
arreigado
nas células
nos sinais vitais
que me fazem viver
no sangue que me corre nas veias
nos versos que garatujo
não quero relembrar
mas tudo me impele
e repele para ti
tudo tem algo teu
que me acorrenta
me transmuta
me mistifica

    Esvoaça como num sopro
    uma doce fragrância
    da paz
    que tu deixaste
    expressa nas coisas
    em que toco
    sinto
    e cheiro

Vem buscar a saudade
meu anjo da guarda

© Piedade Araújo Sol
Funchal,05/08/2005

August 4, 2005

Breve muito breve

Trespassando a obscuridade
entre franjas de exultação
eu exclamo o teu nome
entre o sorrir
dos meus olhos
que se atrapalham
com as estrelas
que resplandecem no céu

Breve muito breve

Beijo-te e sorrio
porque esse ósculo
foi levado pela brisa
e colocado nos teus
lábios semiabertos
e quase tão imperceptível
que tu não pressentiste
nem chegarás nunca a sentir

    Breve muito breve

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 4 de Agosto de 2005

August 1, 2005

Cidade Invicta

Olho o Douro que corre, e de repente
perco-me no meu emudecimento
que engenho aqui sentada
aprisionada neste mutismo
misterioso e individual
este dia de Agosto nasceu pardacento
e eu olho as águas, e sinto-as
como a manhã
queria me perder nelas…
me misturar com os líquenes
me encher de tudo o que não tenho
nem posso ter
Douro que permaneces e corres
lânguido para a foz
deixa-me olhar-te
no teu longo caminhar
e afastar este frio que entretanto
se apoderou de mim…

E trémula e hesitante

    Levanto-me
    e deixo apressada, o meu posto de vigília
    porque o tempo não é meu
    e esgotou-se por hoje…

© Piedade Araújo Sol
1 Agosto 2005

July 29, 2005

Sortilégio

    Para a Hortense

Matizei uma pantalha
com olhos de mar
em aguarelas intensas
de onde sobressaiam
as nuvens
e os olhos prenhes
de enternecimento

Pintei uma tela
sem pincéis
com a polpa dos dedos
coordenei as cores
dispersas paulatinamente

A tela não tem caixilho
o seu ornato
é a amizade

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29 de Julho de 2005

Esperança

Com ferocidade as palavras
saíram
assim sem se vaticinar
ditas
sem dó nem misericórdia
articuladas
abertamente
com golpes certeiros
cavados
gota a gota
formando um barranco
desbravando
momentos sentidos

Estou nua
as palavras despiram-me
e o silêncio
que se desmoronou fulminou
a minha
esperança

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29 de Julho de 2005

July 28, 2005

Fantasia

gaivota

Em meu espírito
esculpi numa tarde, um murmúrio
de gaivota
sobrevoando o mar
tinha um adejo espalmado
quase abalroando as águas
serenas da baía
mas voava ligeira
como uma flecha
e nada parecia detê-la
olhei demoradamente
e retive em meu olhar
sua liberdade plena
de graça e beleza
a brisa levianamente
fustigou meu rosto
nesse preciso momento
senti-me
como
a

    Gaivota que em voo raso
    Uniu a minha cisma
    Impressa nesta fantasia

© Piedade Araújo Sol
Funchal,27 de Julho de2005

July 27, 2005

Rosto Oculto

Vagueio como um cão errante. E todas
as noites vejo uma sombra
entranhar-se em meu sono, leve como
uma silhueta. Tem um semblante
que eu nunca consigo vislumbrar

Agarro um látego, e tento sempre
num gesto precipitado
afectar o ambiente

Adormecer de novo
para descortinar
esse rosto que não vejo!!!

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 27 de Julho de 2005

July 21, 2005

Ausente de mim

Não quero teu sofrimento… despojado
de mim
quero dar tudo o que
perdura de bom
quero ser uma flor que observarás
a cada despertar
um passarinho que ouvirás gorjear
um cão para te escoltar
quero ser tudo, e nada ser
e tudo ter e a nada corresponder
não quero teu sofrer
desamparado
de mim…
conserva as lembranças
dos tempos que já não temos
guarda meu sorriso
estampado no teu coração
E não sofras!!!
Sorri…
antes que
seja tarde demais
para
nós…

© Piedade Araújo Sol
Funchal,21 de Julho de 2005

O Beijo

Cerco-me de meiguice
suspendo silenciosamente
a autonomia
e o feitiço
de devanear
concebo
um beijo com sabor
a hortelã
Meus lábios entreabertos
roçando a brisa
desliza a estupefacção
que se extingue flutuando
no ósculo que sinto
efémero
afectuoso
embriaga-se em mim
uma louca palpitação
extasiante que me
coíbe os sentidos
e me leva
ao éden desse
beijo
que nunca trocamos

© Piedade Araújo Sol

July 13, 2005

Oráculo

Não chegou a hora. Ainda não!!!
não sei o desfecho
desse fio condutor que leva
até esse espaço
onde os poetas gravitam
à procura de capacidade
de alguém os compreender
Ainda não chegou a hora
de desvelar
os segredos que guardam no tempo
que não querem suprimir
e lhes servem de roteiro
onde o sonho galopante
por vezes os leva a um
misantropismo improdutivo
e ingénuo
Ainda não chegou a hora
e a ponte continua junto ao rio
e o comboio já partiu
e eles fecham-se cada vez mais
e sem olhar para trás
fogem e entram na noite
que cai
como um refúgio tentador

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 13 de Julho de 2005

July 7, 2005

Rabiscos

Numa folha de papel
desenho franjas de saudade
que se misturam com o sal
das lágrimas que o nevoeiro
parece enviar e me roça a face
Desenho sulcos de sonhos
duma paz que não terei jamais
A noite cai sobre a folha
que se encontra aqui
ante meus dedos enfadados
de nada escrever
Eu olho-a e questiono as
estrelas que afloram
Na incomensurabilidade do céu
minha respiração agasalha o frio
e sai da minha boca um vapor
que se se mistura com a
saliva e me sabe a fel
São flocos de saudades
E a folha branca
voa e cai no parapeito
das minhas quimeras
olho e vejo o sonho
desvanecendo-se
Em argoladas de fumo
do cigarro semi aceso desamparado
ali no canto direito
da boca crispada
num trejeito de pesar
desvairo e nostalgia

© Piedade Araújo Sol
15.01.2005

July 4, 2005

Jamais sentirás tristeza

Jamais sentirás tristeza para
onde fores levarás contigo a alegria
rindo das coisas loucas e
gozarás o sabor dos frutos maduros
e doces dos meses de verão

Partir às vezes significa ficar
reter por breves momentos
algumas palavras e memórias
zombando por instantes
e guardando bem no fundo
recordações inesquecíveis
e que um dia ficam para sempre
sepultadas no nosso pensamento

© Piedade Araújo Sol

July 1, 2005

Mensagem

Chegou na sinuosidade da chuva. Num dia
de verão, cheirando a cacimbo
o ar estava asfixiante
assim como um sufoco
passei paulatinamente meus dedos
pelos cabelos
estavam secos e quebradiços
sem resplandecência
essa mensagem, ventilada
por um arauto
inebriado de quimeras
e cingido num manto
de enternecimento
ouvia sons… Música…
e meu olhos
abertos de estupefacção
miram ali a mensagem abandonada
queimando-me as mãos
envolvendo-me de mistério
recado em hieróglifo
não interpretei, não quero
ardem-me os olhos
e minhas mãos transpiradas
amarfanham a mensagem
que atiro arrebatadamente
para dentro das recordações
obscuras
e arquivadas no tempo…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 01 de Julho de 2005

June 29, 2005

Barco Sem Porto

Chego nesse barco que nunca fundeou
E fico ao largo. Espreito as casas ao longe
serpenteando a ilha
muitas pintadas a cal branca
Sem querer, vejo a melancolia
em forma de nuvens fofas e
salgadas como este mar excessivo
que me atrai e me domina
Regresso a este porto. Sei que não fico
porque não quero. Não sou de lugar
nenhum
Sou só um barco
que fica breves instantes
porque não tem pátria
e sua moradia será indefinidamente
este mar…

© Piedade Araújo Sol
Funchal,29 de Junho de 2005

June 28, 2005

Súplica

Fico imutável. Sofro com o teu gemer
e queria te dar um sopro
de meiguice e não posso
A tua vida
não se extingue, não sem antes
te cingir, como quem abraça
um filho que regressou de
mais uma expedição.
A noite está gélida.
Mas eu faço-te companhia,
não tenhas medo
não chores
eu estou aqui!!!

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 28 de Junho de 2005

June 25, 2005

Viver

Custa viver assim às apalpadelas
à espera de coisa nenhuma
os dias são estradas sem saída
e já não há sonhos
só um sofrer sem som
uma mágoa serena e tranquila
um egoísmo compartilhado
entre seres humanos

Custa viver assim às apalpadelas
quando não existe motivo nenhum
para coisa nenhuma
e onde há música algures
rostos desiguais desfiando sorrisos
em espaços volúveis
cheios de tédio disfarçado

Custa viver assim às apalpadelas
sofrendo tranquilamente
numa tarde quente de Junho

© Piedade Araújo Sol
Junho 1980

June 22, 2005

Prelúdio

Não entre nos meus sonhos
não quero que os desvende
aquilo que já sabe previamente
Sabe! Eu acho que as colinas serão nossas
os arbustos que crescerem
serão da terra
e nós nos transformaremos
em sementes
seremos as espigas que crescem
nas searas
seremos campos à espera
da água que caíra
dos céus
não entre nos meus sonhos
eles são meus
não os queira deslindar
porque até para mim são indecifráveis

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 22 de Junho de 2005

June 20, 2005

Desilusão

Eu fiz um cântico desse amor
Sem que soubesse
fui seu anjo da guarda
fui serenidade após intempérie
chuvada em tempo de estiagem
gérmen lançado à terra
fecunda
Por vezes fui a sua sombra
e fiz poemas
sem que sofresse
algumas vezes fui
o móvel que não olhou
a roupa que não usou
o perfume que não colocou
fui essa silhueta que nunca notou
num sonho sem rostos
e hoje envolto em nuvens
que vagabundeia no céu
do meu espírito
Farei um hino
tão puro
tão secreto
tão inacessível
que nunca o poderá
cantar
porque a desilusão só
poderá ser este fado
sem ser fado
mas impresso com a marca
dum adeus…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 20 de Junho de 2005

June 19, 2005

Caminhante

Era uma longa ascensão. No descambado
brotavam musgos áridos que
cheiravam a terra molhada. Derrapei
mas consegui levantar-me
qual viandante
em tempo de caminhada
fracassando, por vezes meditando
mas sempre trilhando…
Foi uma longa subida. Já não
é
Consegui alcançar o apogeu
ao longe um pássaro chilreia
Olho-o
E
Olho para dentro de mim
e só encontro
desilusão

© Piedade Araújo Sol
Funchal,19 de Junho de 2005

June 17, 2005

Obscuridade

Estáticas estão as sombras… além. São fantasmas,
acho que não!! Desaguam sobre mim como
uma prestidigitação
na cidade, nos perfumes que se misturam
com o suor do meu corpo… olho o rio
ali tão perto, lembra-me outro tempo
tão remoto, tão lembrado
as sombras complicam esta determinação
de me compreender a mim própria
Esquisita… esta agitação que me faz
querer pegar num pincel
e tentar expedir para uma tela
as sombras que vejo além
ou será cabalmente
os pensamentos perversos
e nefastos que me fazem ver
e querer apagar
as sombras da minha vida

© Piedade Araújo Sol
Coimbra 09/06/2005

June 15, 2005

Guardião de Idílio

Sacudo calmamente esta apatia
da vontade de te ter
cilindro meus desejos insatisfeitos
errantes num qualquer poente
qual pássaro maltratado
buscando agasalho
amarfanho e arrumo para um recanto
este sentimento

Não se arquivam os sonhos, mas eu
não sei o que faça com eles… embora
também não saiba o que faça sem eles
sobre mim mesma enlaço
esta maneira de ser e estar
e sei que não posso, nem devo
cobiçar esta intenção
que tenho de os querer guardar…

© Piedade Araújo Sol
Lisboa, 12/06/2005

June 14, 2005

Momentos

Entro na noite como
um noctívago entra no dia
às cegas e sigo sem orientação
nem rumo definido… chego pausadamente
encontro-me ali perdida
nesse labirinto de obscuridade
alongada sobre um mar
dum universo que não é o meu
e como entrei, saio devagar
cerro os olhos e perco-me
nos momentos extintos…

© Piedade Araújo Sol
Lisboa 10/06/2005

May 31, 2005

Remissão

Tu foste um anjo
sem mácula, que preencheu
as minhas longas alvoradas
tão cheias de afabilidade
Calmamente, fizeste-me compreender, que
o amor é mais que dar, e menos que receber
e pode ser tudo o que quisermos
Teu olhar que não vejo, mas sinto
consternado, só me inquieta mais
por saber que sem querer te feri
Perdoa-me!
Quisera eu adorar-te, e cerro os meus olhos
porque sem querer, vejo as lágrimas
que caem dos teus olhos
E escorrem sem rumo definido
Mas… sem que saibas
essas lágrimas caíram na minha mão
e transformaram-se em pérolas
que adornam um anel
que trago no dedo
da minha direita…

© Piedade Araújo Sol
Funchal,31 de Maio de 2005

May 29, 2005

Poema incompleto

Acordei sobre este poema inacabado
espatifei as páginas em branco
e senti que não queria difundir
nada para aqueles espaços despojados
mas rasguei as palavras com cólera
e embrenhei outras para ali
como um puzzle

Adormeci sobre este poema
que nunca será concluído
porque quem o finalizará
serás tu
e não eu…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 29 de Maio de 2005

May 27, 2005

Extase

Abrasa num anseio que consome
tudo o que há na epiderme
chega como uma flecha
que corta minha respiração
e arqueja num suspiro
sufocado. Num momento
sorvo este ápice de volúpia
envolto em encanto
a anatomia confunde-se
e nossos corpos unidos
extravasam odores
numa limpidez de sentimentos
Nossas bocas seduzem-se
e o éden abre as suas
portas…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 27 de Maio de 2005

May 26, 2005

Laços

Não insisto. Falar de ti é como
falar para mim. Tu não me ouves
nem eu sei já o que disse
ou digo. As palavras escoam
e caem errantes
ali no chão manchado
das ruas por onde vagueamos
ou será que não são ruas
são vielas sem saída. São labirintos
repletos de líquens
Não remordo. Guardo as palavras
num cofre de desesperança
Estou cansada da expedição. É como
se chegasse de uma viagem
e afinal nunca houve largada
o barco nunca ancorou. E eu não saí deste porto
Falar para ti. E dizer que queria
ter o universo na mão. E nada
tenho, é tudo fútil
e que apenas resta um cofre
com palavras supérfluas
do qual eu perdi a chave
e não sei a senha
para desemaranhar
o sigilo para abrir e
deixar emanar estas palavras
que nunca ouvirás…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 26 de Maio de 2005

May 25, 2005

Farsa

Não queria estar infeliz. Meus olhos opacos
oscilam entre as lembranças. O pesar
é tudo o que resta. Suprimo a mim mesma
a falsidade. E sei que foram só mentiras
não tem término nem princípio. É mentira
tudo faz parte de um jogo. Um passatempo
com pedras viciadas
estigmatizado com precedência. O sol teima em
assomar. Mas para mim é só escuridão
tristeza dentro de mim
Dor rasgada que me machuca
como gumes de uma navalha afiada
quis aceitar a mentira como verdade
e na minha permanente confusão
sempre me enganei
mentiras, equívocos, promessas vagas
quero acordar deste marasmo
bate-me, sacode-me
deixa que a loucura tome conta de mim
Estou louca!
louca de dor, alienada por manter
a grilheta desta ilusão….

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 25 de Maio de 2005

Lápide

Não sei porque estou aqui. Se ninguém me
solicitou. Não sei o que faço deste sentir
desta maneira de ser e estar
e não viver
Tenho uma dor sem renitência que me
faz estar aqui sem querer
Esta lápide não tem flores. Não tem nome
não tem nada. É só uma lápide
modelada em mármore. Não sei
porque estou aqui neste
cemitério…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 25 de Maio de 2005

May 23, 2005

Pluma

Piso o risco
edifico defesas
admiro o sorriso
e olho o mar

Sorrio. E finalmente
ofereço-te este poema
leve como uma pluma

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 23 de Maio de 2005

May 22, 2005

Extensão para um poema

Já não caibo dentro deste poema. Não oiço
porque minha voz se extinguiu
nem repercussão deixou no ar. Cheira a cinza
este poema é só um filamento de mim. Que me corta o
decurso me esfarrapa o peito e
me aperta de nostalgia

Fui embora… porque não cabia neste exíguo espaço
onde não existia lugar para mim.
Esta inquietação é seca… morrerá
a escassear de água
não extrairá um verso
sequer e nada será
escrito na penumbra e na afabilidade
da minha transparência…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 21 de Maio de 2005

May 21, 2005

As Palavras

Diluo as palavras no papel. Assim como um pintor
atenua as cores na tela
Por vezes elas saem em cascata. Outras vezes…
os espaços ficam esvaziados, e tudo se torna supérfluo
assim, inútil… sou eu neste dia. Engenho um nome
que cai como uma gota de água
na execução dum poema. Que não é poema
são simplesmente rabiscos. São ternuras
de tranquilidade que encalham
mas ficam ali como uma pedra
fria e estilhaçada. Com uma pedra posso
fazer um poema?
Posso desbravar essa pedra! As pedras têm alma
não sei… respondeu-me um anjo
Diluo estas letras nesta pedra. Há muito tempo
que deveria ter descoberto esta maneira
tão simples de conseguir
inventar esta lentidão de glória
guiada pela imaginação das palavras
com asas de gaivota…

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 20 de Maio de 2005

May 19, 2005

Tela Vaga

Rasuro aguarelas
faço enigmas
elementares na tela

Bato e sacudo o pincel
nd no canto inferior
eis a minha marca
rabiscada ali e entrelaço
s que quer dizer
SOL

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 18 de Maio de 2005

May 18, 2005

Oração

Brota de meu olhar. Estes pingos
de mutismo. Esqueci há muito tempo
como se reza
Fecho os olhos, mas não recordo
nenhuma súplica
Cai de meu olhar. Um frio que
me anuvia. Fumo um cigarro
sem sequer saber porque
o faço
E por entre espiriforme
de fumo
artilho e rezo
com os olhos semicerrados
uma oração que ninguém
entenderia
Pois nem eu própria
a entendo

© Piedade Araújo Sol
Funchal,17 de Maio de 2005

May 16, 2005

Eco

Meu grito ecoa
cabalmente
na planura
confunde-se
e desintegra-se
no vácuo
brado com raiva
e sei que não
consegues ouvir
mas eu transmito
da única forma que posso

E meu eco se desfaz…

© Piedade Araújo Sol
Porto,04/05/2005

May 12, 2005

Elegia Para Um Eco

A bruma da tua cidade
abateu-se como uma silhueta sem extinção
e recolheu às montanhas
fugiste e o peso do silencio
é tão duro como animador
És um lobo que perdeu a sua fêmea
e sentes o coração despedaçado pela dor
O chão que trilhas
é um tapete de folhas
E um uivo ecoa na noite
é o teu
trespassado pelo vento
que talha a noite
A solidão instala-se em todo
o teu corpo de lobo solitário
Desertas para um local
ainda mais remoto
e ficas ali no cimo da montanha
esperando a morte
envolvendo uma nostalgia
que se prolonga através
da tua expectativa

© Piedade Araújo Sol
03/05/2005
Londres

May 5, 2005

Teoria

Inclino-me e estremeço
o espelho dá-me
certezas que não quero ter
A alienação é branca
ou será como um arco-íris
debato me violentamente
e expulso os espectros
que teimam em me acossar
Respiro o cheiro das plantas
e dos plátanos
e bebo a alegria
que entretanto se apodera
de mim e de todo o meu ser
Assim de perfil
abro meus braços
esguios e frágeis
e abraço a vida
que se me afigura
veloz e inteligente
A loucura é absoluta
é branca e trémula
é doce
e contagiante
É como o passar dos dias
iguais
desiguais
E apanho as cerejas
que a cerejeira
teima em não querer
deixar cair….

 
© Piedade Araújo Sol

Rebelde

Inteira mas devorada pelo fogo
que se extingue nas profundezas da alma
o que a  água não apagou
e tudo ficou aberto com um lago
seco onde agora é só terra ressequida
infecunda, onde as sementes
não brotam
 
Rebelde,
serei
ingénua
pura
como a terra onde nada nasce
nem as plantas luxuriantes
nem as ervas nocivas
 
Inteira, mergulhada na meia-luz da noite
e olho
o cavalete, os pincéis
as tintas que se confundem
em espirais de cores
olho delirante a tela
e desenho a ternura espalhada na face…
ali inteira
na pantalha por pintar…
 
 
© Piedade Araújo Sol
19.Abril.2005

Ópio

Narcótico caustico
Droga infiltrada
o sangue que me
corre nas veias
És tu que me fazes
viver assim anestesiada
É por ti que me desfaço
E é em ti que me perco
me introduzo
me desenlaço
Corpo de homem menino
mar tumultuoso
e por vezes tão calmoso
Meu sonho imperfeito
Minha droga consumada
Resquícios de palavras soltas
Vagabundeiam na tarde
Que se dissipa
que traça a noite
E o luar  usurpa
meu leito vazio de ti
Fico ali à espera
Dum corpo ilusório
e tão autêntico
mas tão inacessível
Miscigenado de sabores
odores e trejeitos
Aliso a roupa
E atiro-me com impetuosidade
para cima dos lençóis de cetim
Tenho uma noite pela frente
fecho-me e adormeço
Contigo….
ali a meu lado…
ou tão-somente no pensamento
 
 
© Piedade Araújo Sol
Março/2005

Na Cidade

Esgalho esta tarde
que se abate sobre a cidade
e canto este poema
sem rima
e sem conexão
deslaço este cantar
e olho o por do sol
reflectido nas águas do mar
ineficaz a palavra
não sonante
neste poema presente
e tão distante
 
Renovo esta noite
que se abateu sobre a cidade
embrenhada em sombras
e palavras dispersas
ríspidas e cansadas
faço um sorriso
aberto e franco
e com um andar sublime
enfrento a pureza
do meu poema
transbordante de uma lassidão
que me tolhe o prazer
de sorver o limiar
da minha lucidez
 
 
© Piedade Araújo Sol

Exílio

Os montes deram lugar
a este refúgio dissimulado
onde a brisa me afaga
mansamente os cabelos
e onde o rio corre
indolente para a foz
Aqui tudo desabrocha
ante meus olhos
Aqui te venero e idolatro
te tenho
Não há mapas, não há tempo
só este abrigo inabalável
onde me perco e me encontro
Os montes deram lugar
ao nosso exílio procurado
ao nosso amor compartilhado
onde o repouso do gladiador
se acomoda
trago em meu olhos
o brilho dos teus
e assim quero ficar
a olhar o sol
e comer os frutos maduros
e a olhar as estrelas
que por vezes parecem
tremular sobre os teus cabelos
 
Os montes deram lugar
ao nosso amor partilhado….
 
 
© Piedade Araújo Sol
12.Abril.2005

O Fim da Viagem

Largo as amarras suspendo este brado
Não regresso porque ainda não fui
E não fui porque não irei
Na bruma da tarde que se desvanece
E na noite que desponta enlaçando o mar
Murmuro e constato que
não tenho bússola ainda não a encontrei
Será que ficou além no poente
não saberei jamais
Nada será fim sem fim
sem antes ser princípio
E o amanha é hoje
porque hoje nunca será ontem
E o ontem fomos nós
construindo estes sonhos
Repletos de cores sem cores
Como barcos de papel
que navegavam e chegavam
Ao cais das nossas utopias
fim desta viagem
tão cheia de abismos
envoltos em ingenuidade
Timidamente ofereço
As pétalas das flores multicores
Com que farei uma tela imaginária
Que guardarei para sempre
no interior do meu pensamento
juntamente com o passaporte
para o desenlace
do fim da viagem

© Piedade Araújo Sol
Funchal, 01 de Maio de 2005

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